O eixo anti-China
A contenção e subversão da China são propósitos do imperialismo
O primeiro-ministro do Japão, Suga, foi recebido sexta-feira na Casa Branca, na primeira audiência de Biden a um líder estrangeiro desde o início da sua presidência. Do encontro saiu uma declaração conjunta que espelha o tempo conturbado e perigoso que o mundo atravessa e, muito em particular, a fixação central que assola Washington e o mundo imperialista em relação à China.
Fazendo jus ao carácter sinistro da aliança EUA-Japão, os dois países arvoram-se em defensores das chamadas «regras internacionais» [que não as inscritas na Carta da ONU] no Indo-Pacífico e os Estados Unidos exibem o cacete do «apoio militar» ao Japão através «de todos os meios, incluindo o nuclear». O texto inclui uma inabitual referência a Taiwan, confirmando a disposição de Tóquio em embarcar na escalada provocatória promovida pelos EUA numa questão de extrema sensibilidade que testa as linhas vermelhas de Pequim.
Em Tóquio avultam os sinais de grave amnésia e revisionismo históricos face à política genocida e catástrofes do século XX. Recorde-se que o império do sol nascente ocupou Taiwan ainda em 1895, algumas décadas antes do hediondo massacre de Nanquim perpetrado pelas forças do militarismo japonês, integrantes do Eixo fascista no plano global, no seio da invasão da China continental nos anos que conduziram à II Guerra Mundial.
No comunicado divulgado em Washington não surpreendem a hipócrita referência aos «direitos humanos» em Hong Kong e Xinjiang, nem a aposta de investimento comum nas novas tecnologias e inteligência artificial, em que emerge a actualidade da questão das cadeias de valor dos semicondutores e chips. Esta é uma componente fundamental dos esforços concentrados dos EUA para travar a progressão da China em áreas nevrálgicas em que se discute a supremacia tecnológica, mesmo que à custa do desmembramento selectivo de cadeias de produção internacionais e não olhando aos custos económicos em jogo…
Passar das palavras aos actos nos planos conjuntos assumidos será mais difícil. O Japão tem muito a perder com o alinhamento na espiral contra a China, seu vizinho e principal parceiro comercial. Apesar dos elementos convergentes de classe, há mais espinhos do que rosas na relação com os EUA. A estagnação económica de décadas no país devem muito à rivalidade com os EUA e uma relação subordinada à lei do mais forte. O Japão paga (literalmente) pela maior presença militar dos EUA no mundo (acolhendo mais de vinte bases e 55 mil soldados) e Tóquio é o maior credor dos EUA (com 1.28 biliões de dólares de títulos do Tesouro).
Cada dia que passa em Washington confirma o consenso dominante que identifica na China o rival estratégico dos EUA no século XXI. O encontro de Biden e Suga pretende demonstrar que os dois países constituem a trave mestra de um conjunto mais vasto de alianças. É aqui que entra o Quad (EUA, Japão, Austrália e Índia), a NATO e o seu novo olhar para Oriente, as pressões sobre a Rússia e a ideia peregrina de uma aliança de democracias.
O embate é total, em todos os tabuleiros, e coloca hoje abertamente o objectivo, não só de contenção, mas de subversão interna da China. As suas ameaças não podem ser subestimadas. Mas o declínio e crise geral dos EUA afiguram-se a prazo um factor limitativo. O tempo não joga a favor do imperialismo.