Toalhinhas e muita caca
Quando a caca no bebé é muita, tira-se a fralda e limpa-se com uma toalhinha. Quem já foi pai ou avô sabe bem o valor da toalhinha: limpar o rabo de um fedelho todo cagado, sem esforço, sem nos sujarmos, com rapidez e deixando-o a cheirar a rosas.
Lembrei-me eu da ditosa toalhinha devido ao imenso fedor que se liberta da situação política que vivemos. É que na política há uma palavra que, se correctamente aplicada, é como a toalhinha. É a palavra «todos», mesmo quando ela apenas se infere da utilização abusiva do artigo definido «os».
É assim que ouvimos Marques Mendes dizer que é tempo de «os» políticos penalizarem o enriquecimento ilícito. E Rui Rio afirmar perentório a necessidade de coragem para «o» poder político reformar uma justiça que não funciona. E nas caixas de comentários das redes sociais assegura-se que «os» políticos são «todos» iguais, e são «todos» corruptos.
É que o que me fez lembrar das toalhinhas foi mesmo ouvir Marques Mendes e Rui Rio, limpinhos, bem cheirosos, fugirem às suas responsabilidades próprias e partidárias com a cumplicidade de jornalistas bem amestrados que nunca os confrontam, por exemplo, com o facto de terem impedido a aprovação das propostas do PCP de combate ao enriquecimento ilícito. Ou ouvir falar de corrupção um tipo que tinha como profissão ajudar empresas a fugir ao fisco usando os alçapões colocados na lei por deputados do, então seu, PSD, em fraterna alternância com o PS e estreita colaboração com o CDS.
Noutras situações, veríamos os comentadeiros do PS e do PSD passarem culpas um ao outro por um conjunto de leis que, no essencial, aprovaram conjuntamente. Mas aqui não. A coisa é mais fina e mais funda. A culpa é de «todos». Daqui a não muito tempo, com imenso estardalhaço, algo será aprovado por «todos» para fingir que se resolveu «o» problema. E felizes promoverão a absolvição das causas e das responsabilidades na generalização de uma culpa assim confessada e perdoada. E felizes continuarão a tentar silenciar o PCP. E felizes continuarão a privatizar e liberalizar, a criar o caldo de cultura que alimenta a corrupção e as leis que dificultam proteger o interesse público. E a realidade não os atrapalhará até lhes cair em cima.