A ordem
Reconheça-se ao menos isto: o imperialismo é hábil com as palavras.
Na mais recente edição das Lisbon Speed Talks, promovida pelo Clube de Lisboa, um académico norte-americano de nome Daniel Dexon defendeu que a emergência de novas potências no cenário internacional, a par de outros fenómenos, ameaça a «ordem mundial desejada pelas democracias liberais e ocidentais». Deixemos de lado o autor e concentremo-nos na tese, que aliás não é nova. E, para lá das palavras, desvendemos os significados: a que ordem se refere? Que saudoso mundo era esse, nascido do momento unipolar dos EUA de que também fala Dexon?
Recuemos três décadas, até ao desaparecimento da União Soviética e do campo socialista europeu, momento fundador dessa nova ordem mundial que – garantiram – seria de paz universal (lá está o tal jeitinho para as palavras). Ironicamente, ou talvez não, o seu primeiro acto foi uma guerra, a do Golfo, que juntamente com o bloqueio que se lhe seguiu provocou mais de meio milhão de vítimas iraquianas, muitas das quais crianças, a que se somaram tantas outras na agressão de 2003 e no caos por ela ela criado.
Na própria Rússia, o FMI conduziu a conversão ao capitalismo (rebaptizado então de democracia) auxiliado pelos seus homens de mão Iéltsine e Gaidar e pelo florescente crime organizado: a pilhagem da economia e o desmantelamento do Estado provocaram elevados níveis de desemprego, pobreza e desigualdades e a redução drástica da esperança de vida. Ao desaparecimento da ameaça comunista que desde o fim da Segunda Guerra Mundial servia de pretexto à presença militar norte-americana na Europa, respondeu a NATO com o seu alargamento até às fronteiras da (então) ajoelhada Rússia.
A tal ordem desejada pelasdemocracias liberais e ocidentais destruiu e desmembrou a Jugoslávia, deixando em seu lugar estados dependentes, alguns protectorados e gigantescas bases militares. Impôs programas de ajustamento económico e acordos comerciais de índole neocolonial, que levaram milhões à ruína. As sucessivas crises que provocou conduziram a uma tal concentração de riqueza que, em 2019, apenas 26 pessoas acumulavam tanta como a metade mais pobre da população mundial, correspondente a 3,8 mil milhões de seres humanos. A pandemia cavou ainda mais este fosso.
A ordem que efectivamente interessa está inscrita na Carta das Nações Unidas e nada a espezinhou mais do que a tal hegemonia das democracias liberais. Resgatar os seus valores fundamentais e assegurar a sua concretização são necessidades do nosso tempo, que só a luta libertadora dos trabalhadores e dos povos será capaz de garantir.