«Agir» em Moçambique

Ângelo Alves

Os riscos que Moçambique corre não resultam apenas do terrorismo

Os acontecimentos em Moçambique, na província de Cabo Delgado, em resultado da acção criminosa de agressão de grupos mercenários terroristas, estão a suscitar muita atenção em Portugal. Os genuínos sentimentos de solidariedade do povo português são naturais e saudáveis, tendo em conta a História comum de luta dos povos português e moçambicano contra o fascismo e o colonialismo. O mesmo não se pode dizer dos discursos de «comentadores» e de alguns responsáveis políticos sobre a necessidade de «agir imediatamente» e envolver a União Europeia nessa «acção».

É de facto necessário agir para apoiar Moçambique, o seu governo e as suas Forças Armadas, no combate às forças mercenárias e terroristas, alimentadas a partir do exterior, que assassinam e destroem, acção criminosa que obrigou à deslocação de partes da população na província de Cabo Delgado. Mas o «agir» de uns não é o «agir» de outros. É necessário separar águas e perceber o que se está a passar em Moçambique e quais os riscos – todos os riscos – que o povo moçambicano enfrenta.

É importante saber que a acção de grupos mercenários terroristas em Moçambique não começou agora. Desde 2017 que as forças armadas moçambicanas combatem grupos de mercenários terroristas com origem em países vizinhos e em geral na costa oriental de África, alguns dos quais com ligações a grupos terroristas a operar no Médio Oriente, financiados e apoiados pelos EUA no contexto da estratégia de desestabilização e agressão nessa região. O ataque à vila de Palma, entretanto recuperada pelas Forças Armadas de Moçambique, está longe de ter sido o primeiro ataque terrorista na região.

É também necessário reter que, desde a independência em 1975, Moçambique teve de enfrentar várias tentativas que punham em causa o processo de construção nacional e a independência e soberania conquistadas com a luta. Não se pode esquecer, por exemplo, o papel de potências imperialistas na guerra civil após a independência e as mais que conhecidas ligações entre os EUA e a acção terrorista da RENAMO durante vários anos. É igualmente indispensável ter presente que as acções de agressão contra o povo e o território moçambicanos são inseparáveis da sede de controlo pelas multinacionais das muitas riquezas naturais existentes em Moçambique, nomeadamente na província de Cabo Delgado onde existem grandes reservas de gás offshore, entre outras riquezas, como pedras preciosas. É ainda necessário ter também presente que tal como outros países, também Moçambique tem vindo a diversificar as suas relações internacionais, e que isso questiona objectivamente o tradicional papel das ex-potências coloniais e do imperialismo norte-americano no continente africano.

Portanto, e em conclusão, quando ouvimos discursos que aproximam Moçambique da teoria do «Estado falhado», governado por um «bando de corruptos» que «não consegue defender-se», e quando se insiste até à exaustão na tese da «internacionalização do conflito» e da «intervenção externa» devemos ter presente que os riscos que Moçambique corre não resultam apenas do terrorismo. A «acção» de que Moçambique necessita é a de solidariedade e de apoio verdadeiro. Apoio que fortaleça a capacidade de resposta soberana a mais uma tentativa de desestabilização do seu território e que garanta que serão os moçambicanos que continuarão a decidir dos destinos do seu País.




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