Boas intencões, ou nem por isso

Anabela Fino

A guerra (não declarada) das vacinas continua na ordem do dia e não apenas devido às suspeições que com razão ou sem ela pairam sobre a marca AstraZeneca.

Numa altura em que a penúria do produto já se tornou uma evidência para toda a gente, eis que a senhora Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, não arranja melhor «argumento» para tentar justificar o não recurso à vacina russa do que dizer que a entidade produtora «seria incapaz de corresponder à procura» europeia.

Não consta que alguém tenha perguntado à senhora donde lhe vem tal convicção, ou sequer em que é que isso deferiria, a ser verdade, da falta de resposta – essa sim, já comprovada – das marcas Pfizer, Moderna e AstraZeneca, que manifestamente privilegiam clientes como os EUA e o Reino Unido. Até foi por isso que para esta semana se agendou uma reunião de líderes europeus para analisarem a possibilidade de suspender as exportações europeias de vacinas para países produtores, de forma a garantir que a produção em países da Comunidade se destine primeiro a imunizar os cidadãos da UE. Fogo de vista para contribuinte ver, claro, porque se a preocupação fosse de facto «vacinar, vacinar, vacinar», sem outro critério que não o da eficácia, bastaria ir comprar o produto onde ele existe.

O busílis da questão está na guerra fria declarada por Washington à China e à Rússia. Sob a capa da diplomacia, os EUA têm vindo a pressionar os seus aliados para que não comprem fármacos produzidos pelo que designam de «estados mal-intencionados», o que explica as esfarrapadas explicações de Ursula von der Leyen e o facto de a Agência Europeia de Medicamentos continuar sem aprovar a Sputnik V. Ou seja, eles vacinam-se e nós ficamos com as «boas intenções».




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