Meandros da exploração

Jorge Cordeiro (Membro da Comissão Política)

Os ventos correm de feição nestes tempos de epidemia para que requentados e cíclicos arsenais ideológicos regressem em abundância pela    mão dos que anseiam perpetuar e intensificar a exploração.

A intervenção do Partido e a luta são decivos para a elevação da consciência

É ver por aí, escarrapachado ou entre linhas, o agitar    da «crise» para discorrer apelos à união, o redobrado linguajar que transforma trabalhadores em zelosos «colaboradores» e ainda, com redobrada presença, esse embuste sobre empresas e empresários sem os quais não haveria empregos e, anote-se a enfatização que lhe associam, riqueza era coisa que não se criaria.

Poderia sempre dizer-se com meridiano acerto que vindo de quem vem, e no momento em que vem, se percebe ao que vêm. Com milhões à vista de programas diversos, uns comunitários outros nem por isso, é ver o grande capital a carrear argumentos, habituados que estão a saltar para a mesa de dinheiros públicos, para que lhes não escape o quinhão maior. Um menor grau de exigência na observação da questão daria como bastante e satisfatória explicação para o retomar daqueles floreados semânticos os tempos que se vivem. Mas a questão não é de conjuntura, encontra suporte conceptual e é inseparável do indispensável confronto ideológico que não se deve deixar submergir pelos destroços que à tona de água se enxergam.

Perscrutando com mais atenção descortinaremos o que se esconde sob essa miríade de expressões que todos os dias por aí vendem, e não raramente haja quem se disponha a comprá-las como boas, de que são exemplo «vestir a camisola», «todos no mesmo barco» ou «tão bom é um como o outro (trabalhador e capitalista)». A que se pode e deve acrescentar, ainda, a insidiosa opção a que se estaria condenado entre ter emprego ou direitos e salário, de preferência baixo para dar para todos!

Na verdade, o que lhe subjaz é a tentativa de impor um modelo conceptual que negue ou esconda o factor essencial em que assenta a exploração e que, se evidenciado, a questiona.

A fantasiosa relação harmoniosa entre «colaboradores» e empresa, a disseminação da ideia de que sem patrão (na concepção de detentor de capital) não há trabalhadores, suporta-se naquele idealismo que, fugindo à realidade material, mais não faz do que negar as contradições tão ao gosto do poder dominante.

Ideologia, alienação e exploração

Um olhar mais distraído poderá não descortinar o aparente truque, que mais não é do que uma elaborada e substancial construção ideológica, que os mentores dominantes laboram quando olhando para o processo produtivo e para relação entre capitalista e trabalhador proclamam e concluem, com ar de descoberta, que se essa relação existe e naquele espaço se relacionam, então tão necessários são uns como os outros, então tão necessária e indispensável é uma classe como outra.

Contraponha-se indispensavelmente a este negar de contradição, a este exercício de semeio resignativo do tipo «assim se fez o mundo assim será», «ricos e pobres sempre houve», logo patrões e empregados também, aquilo que é objectivo: a exploração e a sua natureza, a fonte de criação de riqueza incorporada pelo trabalhador    (e só por ele) no processo produtivo, a necessidade histórica de desfazer a contradição e emancipar o trabalho e os trabalhadores.

Contraponha-se a esta tentativa de instituir o que é contra natura a elevação da consciência sobre o lugar de cada um no processo produtivo, avive-se a natureza e origem da exploração mesmo quando não é percecionada. Uma intervenção tão mais exigente quanto os trabalhadores estão confrontados com uma poderosa corrente ideológica dirigida para sustentar a exploração, com novas sofisticadas formas de a exercer e manter, com um desapossamento crescente do posto de trabalho enquanto elemento de ligação ao processo de trabalho e com o que Marx, de modo rigoroso e cientifico, identificou como trabalho alienado no modo de produção capitalista, no qual quem produz perde a noção do valor que agrega ao valor do produto que produz, por força de estar reduzido a mais um custo nesse processo.

A intervenção do Partido e o desenvolvimento da luta concreta a partir da empresa e do local de trabalho são elementos decisivos para a elevação da consciência social e política e a sua integração na luta contra a exploração e pela emancipação e transformação social.




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