Nem tudo é mau

António Santos

Os EUA enfrentam a maior vaga de frio dos últimos anos. As temperaturas negativas reduziram para metade a capacidade de produção de energia ao mesmo tempo que o consumo disparou, levando os preços da electricidade, em Estados como o Texas, a subir mais de 10 mil por cento. Neste momento, mais de quatro milhões de estado-unidenses esforçam-se por manter-se quentes em temperaturas de -10 graus Celsius, durante os cortes de gás e electricidade ordenados pelas agências federais. Outros três milhões deixaram de poder suportar a conta da electricidade e do gás natural.

Somemos a crise social e sanitária: os EUA aproximam-se de meio milhão de mortos por COVID-19 e, numa só semana, 1,1 milhões de estado-unidenses perderam o posto de trabalho, quatro vezes mais que no período homólogo do ano passado. Um cenário que, já avisou a Organização Mundial do Trabalho, pode tomar proporções ainda mais dramáticas.

Mas nem tudo é mau, pelo menos para todos. Um relatório recente do UBS, um dos maiores bancos do mundo, sugestivamente intitulado «Cavalgar a tempestade: a turbulência dos mercados acelera a divergência das fortunas», descreve a pandemia como «um tempo de excepcional destruição criativa schumpteriana» levada a cabo pelos «bilionários destes tempos estimulantes e pioneiros».

Sem conseguir esconder o entusiasmo, o relatório celebra o «sentido de oportunidade» dos 660 bilionários estado-unidenses, de um total de 2189 em todo o mundo, que viram a sua fortuna crescer 40 por cento para um valor total de 4,1 biliões de dólares, o dobro da fortuna detida pelos 165 milhões de estado-unidenses mais pobres, ou seja, metade da população.

Não é um caso isolado: segundo a Oxfam, as 10 pessoas mais ricas do mundo viram a sua fortuna crescer em 500 mil milhões de dólares desde o início da pandemia. Este valor, aponta a organização internacional, seria suficiente para vacinar toda a humanidade e, ainda assim, se doassem apenas o que enriqueceram.

Curiosamente, o relatório da UBS não tem pejo de elogiar a generosidade dos bilionários: desde o início da pandemia, doaram mais de 7,2 mil milhões de dólares à caridade. O que não menciona o relatório é que este valor corresponde a 0,07 por cento da sua fortuna total.

Em qualquer produção de Hollywood, daquelas com super-heróis, se houvesse um grupo de 10 pessoas que, em vez de salvar a vida de milhões de seres humanos, preferisse enriquecer ainda mais, apesar de já não ser possível gastar todo o seu dinheiro, mesmo que vivessem mais cem vidas, chamar-lhes-íamos super-vilões, maus da fita ou monstros. Como é na vida real, chamamos-lhes empreendedores com sentido de oportunidade.




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