O vírus do capitalismo
Como temos afirmado a pandemia da COVID-19 está a expor de forma cada vez mais evidente as insanáveis contradições do capitalismo. As desigualdades e injustiças em termos sociais e entre nações estão numa espiral de agravamento que terá consequências devastadoras para milhares de milhões de seres humanos. Um dos exemplos é a instrumentalização e gestão do instrumento que a ciência criou para tentar suster a pandemia – as vacinas. Apesar de haver mais de 270 vacinas diferentes a nível mundial, e de, segundo alguns estudos, já terem sido compradas ou encomendadas 7 mil milhões de doses de vacinas (o que daria para inocular uma vez quase toda a população mundial), o facto é que em continentes como o africano as perspectivas apontam para que a sua população só tenha acesso universal à vacina no ano de 2024. Há inclusive projecções que apontam para que vários dos países mais pobres do Mundo só venham a ter a sua população vacinada em 2030. Entretanto Israel pondera terminar o seu plano de vacinação já em Março; 100% das vacinas da Moderna e 96% das da Pfizer e BioNTech foram compradas por países ricos; o Canadá já comprou vacinas que dão para vacinar a sua população cinco vezes e 53% das vacinas foram compradas por países que representam 14% da população mundial.
A OMS fala agora da necessidade do combate ao «nacionalismo» da vacinação. Mas o problema não é esse. Os problemas são de fundo são outros: o primeiro é que o capitalismo transformou a saúde, a doença e o direito a viver, num dos mais lucrativos negócios privados com as grandes farmacêuticas a ditar o destino de milhões de seres humanos; o segundo são os profundos fossos de desenvolvimento mundial, em que dezenas e dezenas de países pura e simplesmente foram remetidos para a figura do pobre de mão estendida à espera da esmola do rico; e o terceiro é a acumulação capitalista. Desde o início da pandemia as dez pessoas mais ricas do mundo aumentaram a sua riqueza em 540 mil milhões de dólares. Esse dinheiro daria para pagar a vacinação de toda a população mundial, e ainda sobrava para criar emprego e combater a pobreza.