O vírus

Anabela Fino

Entre 18 de Março e 31 de Dezembro de 2020 os bilionários de todo o mundo acumularam 3,9 milhões de milhões de dólares, sendo a sua riqueza actual de 11,95 milhões de milhões de dólares, o equivalente ao que os governos do G20 (19 países individuais mais a União Europeia) já gastaram para enfrentar a pandemia do corona vírus.

No mesmo período, os dez maiores bilionários do mundo acumularam 540 milhões de milhões de dólares, o suficiente para garantir vacinas contra a COVID-19 para a população mundial.

Bastam apenas nove meses para as mil pessoas mais ricas do mundo verem as suas fortunas voltar aos níveis pré-pandemia, mas os mais pobres vão levar mais de dez anos para repor as perdas sofridas com o impacto económico da doença.

Estas são algumas das conclusões constantes no relatório «O Vírus da Desigualdade» apresentado pela Oxfam na abertura do Fórum Económico Mundial, este ano a decorrer em edição virtual e inaugurado esta segunda-feira pelo presidente chinês, Xi Jinping.

O documento, que expõe de forma nua e crua a brutalidade das desigualdades reveladas e agravadas pela pandemia, mostra ainda que a crise em relação ao emprego daí resultante é a pior em quase um século, estimando a OIT que 500 milhões de pessoas estão agora subempregadas ou sem emprego, enfrentando a miséria e a fome.

«Enquanto uma em cada dez pessoas vai para a cama com fome, as oito maiores empresas de alimentos e bebidas do mundo pagaram mais de 18 mil milhões de dólares aos seus accionistas entre Janeiro e Julho de 2020. Isso é cinco vezes mais do que os valores arrecadados pela ONU, em Novembro de 2020, com o apelo a doações para combater a COVID-19», diz o relatório.

Este retrato do mundo em que vivemos mostra ainda que nove em cada dez habitantes de países pobres ficarão sem vacina em 2021, mas que os países ricos já asseguraram quantidades suficientes para vacinar três vezes as suas populações; que as taxas de contaminação e mortes por COVID-19 são maiores entre os segmentos mais pobres da população; que as mulheres foram as que mais perderam o emprego em todo o mundo; e que a população negra foi a que mais se contaminou e teve o maior índice de mortes devido à COVID-19.

Face a estes dados aterradores, o relatório conclui que a pandemia pode fazer aumentar a desigualdade económica em quase todos os países ao mesmo tempo, o que acontece pela primeira vez desde que as desigualdades começaram a ser medidas, há mais de 100 anos.

É ao sistema que tais desigualdades gera que se chama democracia. E ainda há quem se admire que os fascistas cavalguem a crise, cativando quem concluiu que democracia não, obrigado. Insistir na receita à espera de um resultado diferente é abrir a porta do galinheiro à raposa. Esse é o vírus.




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