Exclusão e manipulação
Ao longo dos anos habituámo-nos a acompanhar as noites eleitorais pela televisão. Uma realidade que não se alterou substancialmente pese embora a emergência das redes sociais As projecções iniciais em torno da abstenção, as primeiras «sondagens» à boca das urnas, a evolução dos resultados, as reacções, os comentários e análises. Desta vez, nem um. Nem um único comunista teve acesso aos estúdios das televisões no passado domingo para comentar os resultados das eleições para Presidente da República. Uma exclusão que é coerente com os critérios editoriais que dominam quem domina os principais órgãos de comunicação social. E que é inversamente proporcional ao espaço dado a outros, mas sobretudo ao espaço que é dado à campanha anticomunista que teve na última noite eleitoral, e nos dias que se seguiram, novos episódios e desenvolvimentos.
É assim que se transforma um progresso eleitoral, como o que foi obtido por João Ferreira num contexto particularmente adverso, numa derrota igual ou maior à de candidatos como Marisa Matias que perde dois terços dos votos nestas eleições. É assim que se repete até à exaustão a enésima sentença de morte ao PCP. É assim que se amplifica sem contraditório a mistificação lançada por Rui Rio sobre os votos de André Ventura no Alentejo separando-os da votação alcançada também noutros distritos. É assim que se consolida uma presença quase hegemónica por parte de sectores e personalidades de direita no espaço mediático, constituindo-se estes como um elemento central na ofensiva reaccionária que está em curso.
João Ferreira, e todos quantos se envolveram nesta candidatura, fizeram uma campanha notável nestas eleições. Apesar da COVID e dos seus impactos, apesar do silenciamento e da deturpação da sua mensagem, apesar da promoção de outros, em muitos casos absolutamente ostensiva, como foi o caso de AV, apesar da discriminação e da exclusão daqueles que são os «imprescindíveis» na luta pela liberdade e pela democracia. Uma campanha e um resultado que não se esgotou no domingo e que deixou sementes para o futuro.