«A América está de volta»

Albano Nunes

Foi notória a preocupação em atenuar as tensões e contradições

O novo presidente dos Estados Unidos da América tomou posse e o registo do evento é incontornável. Não tanto pela apurada coreografia do acto, a começar pelo enorme aparato de segurança – o que entretanto diz muito sobre a profunda crise da sociedade e do sistema político norte-americano – e a acabar na assinatura das primeiras «ordens executivas» cuidadosamente selecionadas para dar da nova administração a imagem de autoridade, credibilidade e mudança de que os EUA estão tão necessitados. Mas para contrariar a corrente dominante na comunicação social que, procurando travar e inverter o crescente desprestígio dos EUA, insiste no seu papel insubstituível para enfrentar o que designam por «novas ameaças» no plano internacional.

O discurso de Joe Binden pouco diz de concreto sobre a política internacional que se propõe seguir. Perante um país atravessado por gravíssimos problemas sociais e uma profunda crise do sistema político liberal norte-americano, concentrou-se na problemática interna e fez do slogan da «unidade» a sua bandeira. Foi notória a preocupação em atenuar as tensões e contradições que a crise e o declínio dos EUA cavaram na classe dominante e em reestabelecer a «normalidade» do sistema de «partido único» Democrata/Republicano.

Entretanto, sobre política externa, dizendo pouco, disse o essencial: «liderar, não apenas pelo exemplo do nosso poder mas pelo poder do nosso exemplo». Um frase que lida à luz de anteriores afirmações como as do seu discurso de 24.11.21 – «A América está de volta, pronta a dirigir o mundo» – não deixa margem para dúvidas. Haverá certamente nuances, algumas bem significativas tão longe foram os desmandos aventureiros da administração Trump com o seu America first. Até porque muitos deles criaram dificuldades mais ou menos sérias nas relações com os próprios aliados e uma tarefa urgente é recompor relações de confiança e fortalecer a aliança dos EUA com as demais potências capitalistas e criar uma frente unida com os seus aliados da NATO, da União Europeia e do Pacífico para enfrentar o que alguns já designam de «desafio sistémico», «competição sistémica» ou «ameaça sistémica», referindo-se à China e ao seu impetuoso desenvolvimento em áreas que o imperialismo julgava coutadas suas.

Sim, diferenças entre as administrações de Trump e de Biden haverá, sobretudo quanto à política interna, mais influenciada pela luta dos trabalhadores e das forças progressistas norte-americanas. Mas por detrás de uma como de outra está o mesmo poder dos grandes grupos económicos, da alta finança, do complexo-militar industrial, de uma força militar e de serviços de segurança infiltrados pelas forças de extrema-direita, estão os mesmos propósitos de hegemonia mundial. E o que já se conhece quanto à composição da nova equipa de ministros e conselheiros e do que já adiantaram nas audições do Senado, aponta claramente para o prosseguimento, e mesmo agravamento, da política de confrontação, ingerência e agressão visando sufocar a luta libertadora dos trabalhadores e dos povos e remover, pela guerra se necessário, todo e qualquer obstáculo às suas pretensões de domínio planetário. É esta a América que «está de volta».




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