Seis dias de paralisia

António Santos

O golpe de Estado que vinha sendo, há meses, preparado por Trump, atingiu o zénite, no dia 6, com a ocupação do capitólio por uma turba violenta convocada e incentivada pelo próprio presidente. A surpreendente paralisia que tomou conta de todas as instituições enquanto a sede do governo era ocupada e vandalizada reflecte a escala da conspiração que, sabe-se agora, permeava todo o Estado, da polícia ao FBI e do congresso à presidência e, simultaneamente, revela a fragilidade constitucional dos EUA perante os caprichos de uma classe dominante desordenada.

Os primeiros objectivos da ocupação fascista do capitólio eram o impedimento da validação dos resultados eleitorais e o sequestro, e possível execução, de congressistas democratas. Trump, que incitara a turba na manifestação que antecedeu a invasão, prometera reencontrar-se com os seus apoiantes no edifício ocupado, mas acabou por pedir-lhes para «irem para casa» à medida que as grotescas imagens de violência, confusão e morte iam humilhando a imagem dos EUA pelo mundo fora. Ainda assim, os golpistas não foram detidos e saíram, livres e algo confusos, pelo seu próprio pé. Paralisado pelo choque e pelo medo, o Estado burguês e todo o seu aparelho repressivo, judicial e político susteve a respiração e fingiu-se de morto: ninguém queria estar do lado errado da História.

Só passados seis dias é que a estranha paralisia se quebrou, quase exclusivamente a reboque da carta endereçada pelos generais do Estado-Maior Conjunto a todos os militares dos EUA. Na prática, a missiva em que os mais altos oficiais de todos os ramos da forças armadas condenavam o golpe, abortava a conspiração pró-Trump no seio das forças armadas e condenava ao fracasso qualquer movimentação militar para evitar a validação das eleições. Estava dado o sinal: sucederam-se então, as condenações, os distanciamentos, as deserções e as naturais traições. O próprio Trump viu-se obrigado, pela primeira vez, a admitir que deixaria a Casa Branca no dia 20 e a comprometer-se com a transferência pacífica de poder.

Privado do acesso às redes sociais pelos respectivos proprietários e de acesso a capital pelo Deutsche Bank, Trump emerge da crise como um pária político a contas com a justiça, mas não o suficiente para dispensar 25 mil soldados, mais do que os que ocupam o Afeganistão, para guardar a tomada de posse de Biden. A fotografia de Washington DC, por estes dias ocupada militarmente e sob a lei marcial, é o retrato de um sistema cada vez mais volátil, minado por crescentes contradições internas e, apesar das de tantos soldados, visivelmente frágil.




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