O 18 de Janeiro de 1934 e a resistência operária
A greve geral insurreccional de 18 de Janeiro de 1934 foi a reacção operária à entrada em vigor do Estatuto do Trabalho Nacional, legislação semelhante à Carta Del Lavoro de Mussolini com que o fascismo pretendia extinguir o sindicalismo livre e impôr em Portugal o modelo corporativo. O derrube da ditadura figurava como um dos objectivos dos revoltosos.
Convocaram-na, numa inédita expressão de unidade, estruturas sindicais de todas as tendências: a Comissão Inter-Sindical, de influência comunista, a Confederação Geral do Trabalho, anarco-sindicalista, a Federação das Associações Operárias, de orientação socialista, e os Sindicatos Autónomos. Nas principais localidades operárias do País verificam-se greves, manifestações, acções de sabotagem, confrontos com as forças repressivas.
Só na Marinha Grande a acção assumiu verdadeiramente um carácter insurreccional: durante horas, os trabalhadores controlaram a vila, proclamando o soviete. São ocupados os paços do concelho, os telégrafos, o quartel da GNR. Ninguém foi maltratado. À frente do movimento marinhense estava o PCP, que aí tinha uma forte organização e quadros experimentados por anos de luta do proletariado vidreiro.
A repressão não tardou: de Leiria seguiram para a Marinha Grande unidades militares com infantaria, artilharia, cavalaria e aviação, que acabam por quebrar a forte resistência operária. Muitos revoltosos são presos e, em seguida, espancados e torturados. Outros conseguem escapar. Dois participantes no movimento revolucionário da Marinha Grande, Augusto Costa e António Guerra, foram mais tarde assassinados no Tarrafal.
A repressão que se abateu sobre a Marinha Grande e a prisão ou fuga de destacados quadros do Partido e do Sindicato Vidreiro obrigaram a uma profunda reestruturação da organização partidária na vila. Em breve, novos quadros se revelaram e novas lutas se travaram. Em Janeiro de 1975, afirmou Álvaro Cunhal: «Marinha Grande é um nome escrito a ouro na história do movimento operário português. Melhor se pode dizer: escrito com lágrimas e sangue. (…). As tradições de luta do proletariado da Marinha Grande são inseparáveis da actividade dos comunistas.»
Lições para o futuro
O movimento revolucionário de Janeiro de 1934 não venceu – nem tinha hipóteses de vencer. A palavra de ordem de greve geral insurreccional não teve em conta as condições existentes e a correlação de forças. Na generalidade das localidades, a insurreição não foi precedida de um amplo trabalho de organização e mobilização de massas.
Contudo, o 18 de Janeiro de 1934 merece um lugar de destaque na história da resistência ao fascismo em Portugal, ao ser a primeira grande acção de massas contra o fascismo, com a classe operária como força autónoma. A unidade alcançada e a coragem e combatividade dos participantes devem também ser valorizadas.
Constituiu, além disso, uma importante fonte de ensinamentos para novos combates, também eles decisivos, contra o fascismo e pela liberdade, nomeadamente para o reforço da organização do movimento operário e do Partido.