Por uma visão integrada do ambiente que sirva o povo, o País e o equilíbrio ecológico

VIRAGEM Os oito projectos de lei que visam estabelecer uma lei de bases para a política climática, em apreciação na AR faz hoje uma semana, baixaram todos à comissão de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território, sem votação, por 60 dias.

O modo de produção capitalista conduz à destruição de recursos e da natureza

Lusa

Em debate estiveram diplomas apresentados pelo PCP, PEV, PS, BE, PSD, PAN e pelas duas deputadas não inscritas Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues, o que só por si diz bem da relevância dada a esta matéria.

Mas se esse reconhecimento é consensual e o mesmo se pode dizer quanto à identificação dos fenómenos negativos que lhe estão associados, já quanto às suas causas e às soluções para os enfrentar são bem diversos os pontos de vista.

E foi por aí precisamente que o PCP clarificou a sua posição neste debate, deixando claro que se é óbvio que os efeitos da intervenção humana no equilíbrio ambiental não tiveram início com o capitalismo, não o é menos que o modo de produção a ele associado veio introduzir perturbações nunca antes ocorridas.

«O problema ambiental, de resto, o problema da humanidade, é o problema dos recursos, neste caso da sua utilização que, num capitalismo dominante à escala global, orienta-se não para a satisfação de necessidades e do bem-estar, mas sim para a maximização do lucro, com a criação de necessidades e utilização desenfreada de recursos», afirmou a deputada comunista Alma Rivera, lembrando que a «reprodução constante de capital» colide não apenas «com as vidas e direitos humanos mas também com a natureza».

Razão, aliás, para que o PCP diga que «não escamoteia nem reabilita o sistema» e que «o capitalismo não é verde». O facto de apenas 100 grupos económicos serem responsáveis por 70% das emissões globais, testemunha-o de modo eloquente, observou a parlamentar comunista.

E por ser essa a realidade, ou seja, por o modo de produção capitalista ser o responsável pela destruição da natureza é que urge definir «objectivos a curto e médio prazo» que operem a imprescindível viragem. Mudança tanto mais necessária quanto é sabido que a situação ambiental no nosso País se caracteriza por uma «ausência de visão e estratégia integrada», segundo Alma Rivera, que recordou ser este o resultado de opções de PS, PSD e CDS que conduziram à «privatização de sectores fundamentais como a energia ou os resíduos» e à «progressiva mercantilização da natureza».

Diferenças assinaláveis

Contribuir para alterar este panorama é, pois, o que o PCP se propõe fazer com a sua proposta de Bases da Política de Ambiente e Acção Climática (ver caixa). A diferenciá-la está, desde logo, o facto de não isolar a questão do clima da política geral de ambiente. Porquê? Como explicou a deputada comunista, porque a «Lei de Bases do Ambiente tem de ter a questão climática como questão estruturante», mas também porque «uma segmentação da abordagem seria absolutamente ineficaz».

Assim, para o PCP, «nem a acção climática é alheia ao ambiente e aos recursos com que contamos, nem a política de solos, de recursos hídricos, de ar, de recursos geológicos e minerais, energéticos, as florestas, a biodiversidade ou o tratamento de resíduos e a produção agro-alimentar podem deixar de ser parte estruturante da resposta às alterações climáticas».

«Qualquer decisão, medida, qualquer acto legislativo tem de ser orientado por princípios que tenham em conta o sistema ecológico globalmente considerado», sustentou Alma Rivera, observando que não têm faltado «estratégias, planos e programas» para mitigar os efeitos das alterações climáticas, o que tem faltado são «visões intersectoriais que se desalinhem com o poder económico e financeiro».

E também neste capítulo são notórias as diferenças do diploma comunista, quer nos seus objectivos quer nas suas linhas de acção. «Não alimentamos o poder económico, não servimos interesses obscuros, nem visões mercantilistas da natureza ou que ignorem responsabilidades cumulativas», vincou a deputada, convicta de que o que importa é «transformar, não escamotear responsabilidades, muito menos transferi-las para as camadas populares». Fazê-lo, do seu ponto de vista, é pura hipocrisia, levando-a a interrogar-se, entre outros exemplos que deu, se «será honesto dizer às pessoas para comprar verde, que a culpa é do seu consumo, e depois criar produtos destinados a ter um período de vida reduzido e assim terem de ser comprados novamente».

Daí que, para o PCP, a «visão integrada do ambiente» seja a que melhor serve os interesses do povo e do País, a que melhor salvaguarda o «equilíbrio ecológico» e a que melhor garante um combate efectivo às alterações climáticas. Doutro modo, é fazer «ambientalismo tipo jardinagem, que é o ambientalismo sem luta de classes, como Chico Mendes o apelidou», sintetizou Alma Rivera.

A viragem que urge fazer

O PCP estabelece no seu diploma, com precisão, as várias linhas de acção e os objectivos a curto e médio prazo. Apontada, desde logo, é a necessidade de uma «real limitação de emissões com efeito estufa e outros poluentes, sem atribuição de licenças transacionáveis, sem financeirização». «O País tem de se opor a mecanismos de especulação que não resolvem o problema, podendo até, como assistimos no Comércio Europeu de Licenças contribuir no sentido contrário», frisou Alma Rivera.

Diminuir a dependência dos combustíveis fósseis – cobrem hoje 85% das necessidades energéticas mundiais –, é outra direcção de trabalho incontornável, tal como é a «planificação económica», determinada em função das necessidades da população e do País.

Não menos importante é o equilíbrio territorial, organizando-o para que haja uma «utilização racional de recursos e para a transição do paradigma do transporte individual para o transporte colectivo», lembrou a parlamentar do PCP.

Por outro lado, importa avaliar as necessidades de produtos, bens e serviços, «combatendo a obsolescência programada e prolongando a durabilidade de equipamentos e infra-estruturas».

Defender a «produção local e encurtar os ciclos de produção-consumo, travar a liberalização do comércio mundial», constitui outro objectivo preconizado no diploma comunista, no qual, já num outro plano, se erige como prioritária a defesa dos ecossistemas naturais, terrestres e marinhos, e a recuperação de ecossistemas degradados, isto é, uma «política de preservação de recursos naturais e valores ambientais, sem apropriação destes por grupos económicos».

Como vital é o combate à mercantilização da água e à desresponsabilização do Estado na defesa da natureza e do ambiente, afirma o PCP, que vê igualmente como insubstituível a participação democrática das populações na definição de políticas públicas à escala local e regional.

Papel decisivo tem, por fim, a luta pela paz, enquanto parte integrante da luta pelo ambiente. É que, como salientou Alma Rivera, «o militarismo e a indústria do armamento são dos fenómenos mais poluentes e não é por acaso que a conceptualização do crime de “ecocídio” está ligada precisamente à destruição total provocada pela utilização de napalm pelos Estados Unidos na sua guerra contra o Vietnam».



Mais artigos de: Assembleia da República

Renovado o estado de emergência

O PCP votou de novo contra a renovação do estado de emergência, proposto pelo PR e por este ontem mesmo decretado após aprovação na AR com os votos favoráveis de PS, PSD, CDS e PAN. Iniciado às 00h00 de hoje, a medida vigorará por mais 15 dias. Perante a difícil situação que o País atravessa – quer pela evolução...

PCP quer plano de contingência para a TAP

Está agendada para a próxima quarta-feira, 20, a discussão de um projecto de resolução do PCP em defesa da TAP, dos seus trabalhadores e da soberania nacional. O intuito é levar o Governo a adoptar um plano de contingência, em vez da anunciada reestruturação. «Não aceitamos o plano de reestruturação. A TAP precisa antes...

Surtos em lares hoje em debate na AR

Os problemas nos lares de idosos estarão hoje em foco na AR, em debate de actualidade requerido pelo PCP, que vem defendendo desde Maio do ano passado a criação de uma bolsa de recrutamento de trabalhadores em instituições das Segurança Social, sejam lares, creches, jardins de infância ou instituições de pessoas com...