Vale a pena lutar e o XXI Congresso do PCP comprovou-o uma vez mais
LUTAS As lutas dos trabalhadores e do povo em defesa dos seus direitos e aspirações estiveram presentes na generalidade das intervenções proferidas no XXI Congresso do PCP, realizado em Loures no final de Novembro. Por isso incomodou tanto...
O XXI Congresso do PCP deixou claro que lutar vale a pena
Para os detentores dos principais órgãos de comunicação social – grosso modo, os donos dos principais sectores da economia nacional – o XXI Congresso do PCP constituiu um exemplo perigoso, pois ali se mostrou que há alternativa à política de direita e ao capitalismo, que se luta, e muito, em Portugal e que dessa luta resultam frequentemente importantes vitórias: daí a violenta ofensiva contra a sua realização e a desvalorização que se seguiu.
Deixemos de lado o que do Congresso se disse (bem como o que, sendo relevante, não se disse) e centremo-nos no que lá se debateu: os problemas, as aspirações e as lutas por uma vida melhor, contra a exploração, as injustiças e as desigualdades.
Do distrito de Évora veio Joaquim Matos, trabalhador na Gestamp, onde «imperam os baixos salários, bancos de horas, a precariedade, entre outros ataques aos direitos dos trabalhadores». Na unidade de Vendas Novas, uma das três da multinacional em Portugal, os trabalhadores têm vindo a travar várias lutas que levaram a que desde de 2017 se conquistassem alguns avanços: conseguimos a passagem de 10 trabalhadores por ano a efectivos, a rejeição de um prémio baseado na meritocracia, travado a tentativa de implementação de laboração contínua. Importantes foram os aumentos salariais, como em 2019, com um aumento de 45 euros para todos, ou em 2018, com a reconquista do subsídio de turno.(…) A Gestamp, no início da epidemia, despediu todos os trabalhadores temporários que poderiam ter ficado também em layoff e roubou dias de férias.
Nas empresas do distrito da Guarda, realçou Carlos Veloso, a situação não é muito diferente:
Quando falamos da Guarda, falamos de interior, do despovoamento e abandono pelos suspeitos do costume, praticantes das políticas de direita, PS/PSD/CDS-PP. Um distrito que sofre com a destruição do seu tecido industrial, com o desaparecimento de muitas empresas, em particular nos lanifícios. Num distrito com poucas oportunidades de trabalho, é fácil para o patronato aproveitar-se desta situação para criar pressão sobre os trabalhadores. Mesmo assim as lutas dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e vida existiram e o PCP esteve com eles.
No Contact Center da EDP em Seia, na Unidade Local de Saúde da Guarda, no Centro Educativo do Mondego, na Santa Casa da Misericórdia de Seia, na Confama, confecções Lda e na Serralã, na Dura, na Coficab, nos vários sectores da administração pública, a luta travou-se, com o estímulo e o apoio dos comunistas.
Tal como no Porto, aliás, como da tribuna do Congresso deu conta Miguel Ângelo Pinto:
Na Inapal, recorrendo ao pré-aviso de greve, os trabalhadores viram aceite o seu caderno reivindicativo; na Nova DS Smith, após várias greves, os trabalhadores continuam a lutar para verem as suas reivindicações atendidas. Na Camo: em outubro denunciámos o despedimento pretendido ao realizar uma primeira concentração de dirigentes/delegados à porta da empresa, repudiando o despedimento e, caso a empresa o mantivesse, a próxima iniciativa seria deslocar esta concentração até à Sede da Camo, na Galiza. Este facto obrigou a empresa ao diálogo (…).
Se, nas profissões intelectuais, há muito que imperava a precariedade e a insegurança, o surto epidémico de COVID-19 veio agravar a situação. Também aqui, a organização, a resistência e a luta desempenham um papel decisivo, como realçou Miguel Soares:
Desenvolveu-se o trabalho de promoção da unidade, da mobilização para a luta, da organização em estruturas representativas, e de classe, da adesão ao Partido – as condições subjectivas. Importantes organizações foram criadas, desenvolveram-se ou afirmaram o seu papel. Realizaram-se as duas maiores acções de massas dos trabalhadores do espectáculo, uma delas em 4 de Junho deste ano, com notáveis níveis de participação e de defesa e reivindicação de um outro rumo para a política cultural: o reforço do financiamento público, com o patamar mínimo de 1% do OE, o trabalho com direitos e a definição e criação de um Serviço Público de Cultura.
Direitos são para cumprir
Também as limitações ao direito constitucional à habitação estiveram em realce no Congresso. Para Natacha Amaro, Lisboa é, provavelmente, a cidade do País mais brutalmente atingida pela especulação imobiliária e o negócio do turismo, favorecidos pela gestão municipal do PS, agora com o BE, e que resultaram no aumento exorbitante do preço por m2 e a expulsão de milhares de lisboetas para outros concelhos, na descaracterização de bairros, na impossibilidade objectiva de se aceder a uma casa para viver.
Já Gonçalo Tomé relatou a longa luta travada pelas populações, nomeadamente nas duas áreas metropolitanas, pelo direito à mobilidade e aos transportes – o PCP foi a voz política desta exigência, plasmada no Orçamento do Estado de 2019, que consagrou o direito aos passes sociais mais baratos e abrangentes:
Em 2016, lançámos [o PCP] uma campanha política de massas pela valorização dos transportes públicos. Recolhemos milhares de assinaturas, realizámos marchas e desfiles; e os eleitos da CDU fizeram aprovar moções em todos os municípios da Área Metropolitana de Lisboa a favor do alargamento do passe social intermodal e da redução do seu custo para os utentes. E tal como tinham feito desde 1997, em Dezembro de 2016, PS, PSD, CDS com a abstenção do BE voltavam a chumbar o projecto-lei do Partido para o alargamento do Passe. Voltámos à rua (…).
A delegada Cláudia Martins referiu-se à luta das pessoas com deficiência pelos seus direitos, «há muito consagrados na lei e para os quais o PCP tem dado importante contribuição». Porém, não têm reflexo na vida concreta da maioria das pessoas com deficiência persistindo dificuldades no acesso à formação profissional e ao emprego, insuficiências nos apoios, no domínio da saúde, da educação e da segurança social. Arrasta-se a falta de acessibilidade física - vias, edifícios e transportes públicos – e a informação e comunicação não estão acessíveis para todos. Persiste a carência de respostas para os jovens com deficiência que saem do ensino obrigatório sem que os apoiem na construção de um projecto de vida.
Estes e muitos outros exemplos, que demos em edições anteriores e continuaremos a dar, no futuro, mostram o que realmente incomoda alguns nos congressos do PCP. Da nossa parte, pretendemos continuar a incomodar cada vez mais os que vivem à custa da exploração e da negação de direitos. Não é esse o compromisso de sempre dos comunistas?