AKK vai à guerra

Jorge Cadima

A mi­nistra alemã da De­fesa, An­ne­gret Kramp-Kar­ren­bauer (AKK), fez um dis­curso a 23 de Ou­tubro com o que chamou uma «oferta»: a Ale­manha re­nova uma par­ceria su­bor­di­nada aos EUA – a West­bin­dung – para com­bater a Rússia e a China. Diz AKK: «a West­bin­dung é e per­ma­nece uma clara re­jeição da ten­tação his­tó­rica da equi­dis­tância [...] amarra-nos fir­me­mente à NATO e à UE e [...] po­si­ciona-nos contra uma fi­xação ro­mân­tica com a Rússia». E para que não haja dú­vidas: «o Oci­dente como um sis­tema de va­lores está todo ele em risco. Tornou-se de novo es­sen­cial que a Ale­manha con­firme o seu com­pro­misso com o Oci­dente. […] Só a Amé­rica e a Eu­ropa juntas podem manter o Oci­dente forte, de­fen­dendo-o contra a inequí­voca sede russa de poder e as am­bi­ções chi­nesas de su­pre­macia global». Tra­dução: a inequí­voca sede de poder e am­bição de su­pre­macia global euro-ame­ri­cana não deixa es­paço a ter­ceiros.

Para AKK, a West­bin­dung não é uma ali­ança entre iguais e as­senta sobre a força mi­litar. Diz que «temos de saber viver com um pa­ra­doxo: por um lado a Ale­manha con­tinua a de­pender da pro­tecção es­tra­té­gica da Amé­rica. Por outro lado, deve ao mesmo tempo tornar-se um de­fensor ac­tivo da ordem Oci­dental. Per­ma­ne­cendo um re­ceptor em termos es­tra­té­gicos, a Ale­manha tem de si­mul­ta­ne­a­mente tornar-se um dador es­tra­té­gico muito mais as­ser­tivo. […] Ser um re­ceptor é ser-se de­pen­dente, não ter total au­to­nomia es­tra­té­gica». Mas se para ir à guerra é pre­ciso ser ca­pataz, que assim seja: «A West­bin­dung e a eman­ci­pação alemã em termos de po­lí­tica de se­gu­rança estão in­ti­ma­mente as­so­ci­adas. Sermos parte do Oci­dente mede-se também pela nossa dis­po­sição em de­fendê-lo. Não apenas por meios mi­li­tares, mas também». AKK quer re­forçar a pre­sença mi­litar da Ale­manha «na re­gião do Bál­tico, no Mar do Norte, nos Balcãs e no Me­di­ter­râneo». Faz lem­brar o Le­bens­raum (es­paço vital) hi­tle­riano, em­bora ainda não tenha che­gado o tempo de falar no Volga. Não há COVID que os trave: «temos de provar que le­vamos a sério a nossa de­fesa [...]. Demos um bom exemplo com o Or­ça­mento para 2021: as des­pesas com a de­fesa não serão cor­tadas apesar da COVID-19. Pelo con­trário, terão até um li­geiro au­mento». Dei­xando a posse de armas nu­cle­ares para os EUA, AKK acha que «a Ale­manha tem de se com­pro­meter muito fir­me­mente com a pros­se­cução da par­tilha nu­clear no seio da NATO e atri­buir-lhe os re­cursos ne­ces­sá­rios». Mesmo que o povo alemão não queira: «às vezes nem pode ser ver­ba­li­zado […] não é algo po­pular, mas tem de ser feito».

AKK dis­cursou antes das elei­ções nos EUA. Fez questão de sa­li­entar que «fa­zemos esta oferta in­de­pen­den­te­mente de quem ganhe». As que­zí­lias com Trump são se­cun­dá­rias. AKK quer ir à guerra, nem que seja de mãos dadas com o KKK (Ku Klux Klan). Para re­cordar, quando nos fa­larem dos nossos par­ceiros e obri­ga­ções no seio da UE.

O dis­curso de AKK faz luz sobre a pa­tranha do en­ve­ne­na­mento de Na­valny. A re­mi­li­ta­ri­zação da Ale­manha, que por duas vezes no sé­culo XX levou o país e a Hu­ma­ni­dade à tra­gédia, é in­se­pa­rável das men­tiras de guerra. Merkel e AKK como Bush e Colin Powell. São os va­lores oci­den­tais. Na West­bin­dung, os se­rial kil­lers (as­sas­sinos em série) são in­va­ri­a­vel­mente se­rial liars (men­ti­rosos em série).




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