A sugestão
É rara a entrevista a um comunista em que não seja lançada a cartada chinesa, ou cubana, ou venezuelana, ou russa, ou… Em quase todas se questiona o «apoio» do PCP aos regimes que vigoram nesses países, procurando desviar a atenção de matérias prementes e, simultaneamente, tentando colar o Partido a esses regimes (ou, melhor dizendo, àquilo que deles se diz, que não será bem a mesma coisa). O que o entrevistado disser sobre os direitos dos povos à paz e à soberania, as agressões e bloqueios do imperialismo e suas consequências, pouco lhes interessa. Basta-lhes a caricatura, que o preconceito faz o resto.
A recente entrevista (interrogatório?) de João Ferreira ao Público e à Renascença é reveladora. O alvo, desta vez, foi a Rússia de Pútin, ficando a dúvida se as jornalistas saberão que o presidente russo integra o Rússia Unida, partido que liderou a transição do país para o capitalismo (sobre as cinzas da URSS, que desapareceu há quase 30 anos), e que os comunistas são o principal partido da oposição no país. Desprezando qualquer tentativa de explicação, contextualização e enquadramento por parte do entrevistado, as inquisidoras lá disparavam, uma e outra vez: mas é a favor ou contra?
Esta cartada – simplista e manipulatória, como convém – não é exclusiva dos funcionários dos média dominantes. Também Pedro Filipe Soares, deputado e dirigente do Bloco de Esquerda, recorreu a ela para atacar o PCP, que segundo ele apoia os regimes de Cuba, Venezuela ou China. Já Ana Gomes acusou João Ferreira pelo apoio aos regimes «de Maduro na Venezuela ou de Pútin na Rússia».
Deixemos de lado as coincidências entre a militante do PS, o dirigente do BE e a generalidade dos órgãos de comunicação social, que curiosamente ou talvez não partilham com o Pentágono uma mesma lista de regimes,cuja definição, diga-se o que se disser, é apenas esta: qualquer governo que, por uma ou outra razão, ouse desalinhar dos ditames de Washington.
Mas não se pretende aqui alertar para tão significativas convergências, apenas deixar uma sugestão: que em futuras entrevistas se confronte o BE com o apoio que deu à destruição da Líbia, transformada hoje num campo de batalha e num imenso mercado de escravos. Ou com a amizade que o une aos rebeldes do Exército Livre da Síria, que afinal mais não é do que um disfarce – para ocidental ver – dos vários grupos terroristas islâmicos que massacram o povo sírio. E, de caminho, questione-se Ana Gomes se é a favor ou contra as organizações fascistas e neonazis que dominam a Ucrânia pós-Maidan, a mesma onde vislumbrou uma nova era.
De falta de coerência, porém, ninguém os pode acusar: por mais criativos que sejam nos argumentos, partilham também com o imperialismo os alvos a abater.