Concepção ou mera distração?
É, ou devia ser, conhecida a relação inconciliável entre trabalho e capital inerente ao modo de produção capitalista. Como conhecida é a tentativa dos mais directos interessados na perpetuação do sistema de exploração em a iludir. É por esta, e não por outras razões, que salários e direitos estão no centro da luta política. É por esta razão que se erguem os coros lamurientos, quando não catastrofistas, sempre que se fala de aumento de salários, de densificação de direitos dos trabalhadores, de defesa dos postos de trabalho e do emprego.
Como uma vez mais se viu a propósito da proposta do PCP sobre o aumento do salário mínimo nacional. Dir-se-ia que sem grande surpresa. Os mesmos e falsos argumentos com esta ou aquela variável de conjuntura. Mas invariavelmente assente na ideia de que «as empresas não aguentam», que a escolha seria entre ter emprego ou ter salário, entre aumentar salários ou contratar trabalhadores. E quando as circunstâncias ajudam, como é o caso, o «imbatível» argumento da crise e das teorizações a ela associados, seja a de que os recursos são finitos e as dificuldades devem ser partilhadas.
Sendo tudo isto conhecido e previsível, já causa maior perplexidade esta nova corrente que procura fazer depender direitos e salários dos trabalhadores dos lucros do capital. A concepção bizarra de condicionar o «direito» a despedir em função da existência de lucros, seja na versão propagandística, seja na versão legislativa de legitimação dos despedimentos por via de certas penalizações fiscais, acrescenta uma nova e perigosa variante, anestesiante e desfocada, cuja resultante política é a de acrescentar margem política aos que fazem da exploração o seu objectivo central. Esperemos, ainda que sem grande ilusão, que por mera distração.