«Empurrar com a barriga»...

Pedro Guerreiro

A Alemanha muda alguma coisa na UE para garantir o essencial

Inicia-se amanhã a reunião do Conselho Europeu que aponta como objectivo chegar a acordo quanto ao Quadro Financeiro Plurianual – o orçamento – da União Europeia, para o período entre 2021 e 2027, e quanto ao chamado fundo de recuperação, engendrado na sequência dos profundos efeitos económicos e sociais do surto de COVID-19, que aceleraram o despoletar uma crise já latente ao nível da UE.

Como habitualmente, adensa-se a dramatização, com a atribuição dos diferenciados papéis na contenda, mas em que os possíveis parâmetros do desfecho foram previamente definidos e delimitados por quem tem a batuta.

Entendamo-nos…, o Conselho Europeu não irá debater, entre outras importantes medidas que se impunham: a anulação da dívida pública emitida pelos Estados que integram a Zona Euro no âmbito da resposta às consequências económicas e sociais do surto epidémico; a necessidade do financiamento directo dos Estados por parte do BCE, dando combate à escandalosa especulação dos mercados financeiros; a renegociação das dívidas públicas de Estados, permitindo direcionar recursos para a resposta ao agravamento dos problemas económicos e sociais; o reforço do orçamento comunitário, assegurando o que devia ser a sua função redistributiva, com vista a uma efectiva coesão económica e social; a rejeição da criação de impostos europeus, que desviariam para a UE meios financeiros indispensáveis ao desenvolvimento de Estados; ou a adopção de medidas que visem o controlo da circulação de capitais.

De igual modo, não estará em debate no Conselho Europeu a necessária revogação dos mecanismos – como o Pacto de Estabilidade, o Tratado Orçamental ou o Semestre Europeu – que condicionam Estados na promoção do investimento público, no financiamento dos serviços públicos, na dinamização da actividade económica, na resposta aos problemas sentidos pelos trabalhadores e os povos. Pelo contrário, todos os esforços são feitos para a manutenção destes instrumentos de condicionamento, de controlo, de chantagem e de ingerência, que foram, são e serão utilizados consoante a conveniência das grandes potências da UE e do grande capital.

Num quadro de crescentes dificuldades, Merkel multiplica-se na afirmação do magnânimo gesto de solidariedade que representaria a aprovação do Quadro Financeiro Plurianual e do chamado fundo de recuperação, no entanto tal não significaria mais que a adopção do que a Alemanha considera necessário para, neste momento, não acrescentar mais crise à crise. Isto é, aliviar momentânea e relativamente a Itália e a Espanha, com o intuito de salvaguardar a Zona Euro e o Mercado Único, instrumentos económicos e políticos, nas actuais circunstâncias ainda mais essenciais para os grandes grupos económicos e financeiros alemães. Ou seja, a Alemanha muda alguma coisa para garantir o essencial, empurrando o problema com a barriga

Aqueles que ocultam esta realidade, e que neste contexto anunciam «boas notícias vindas da Europa», mais não fazem do que semear ilusões quanto à UE, à sua natureza, aos seus objectivos, às suas políticas de incremento da exploração, de desigualdades sociais, de assimetrias de desenvolvimento, de imposição de relações de dependência e domínio político, de bloco imperialista.

 



Mais artigos de: Opinião

Defender o SNS – o exemplo do Hospital dos Covões

Ficou claro, nestes meses de combate à COVID-19, que o Serviço Nacional de Saúde é a resposta. No entanto, temos vindo a denunciar a dimensão e agressividade do ataque por aqueles que querem fazer da saúde negócio.

Era outro…

O PCP não se deixa confinar à institucionalidade política ou ao impessoal éter mediático. Assim é porque em tempo de grandes desafios quer cumprir o seu papel enquanto partido revolucionário, ligado à vida e ao concreto da realidade social, que está lá onde estão os trabalhadores e o povo, defendendo sempre a sua saúde....

A bomba relógio

Num texto recente, e razoavelmente asseado no que respeita à reposição da verdade histórica sobre a II Guerra Mundial, Putin acusa Lénine de ser o responsável por ter deixado na Constituição da URSS uma bomba relógio que levaria à sua implosão. De que fala Putin? Do papel de Lénine para que a Constituição da URSS...

Longe do fim

Três décadas depois de o cientista político e economista norte-americano Francis Fukuyama ter publicado o seu famoso artigo «O fim da história?» na revista The National Interest, a luta de classes – pasme-se! – não desapareceu. Para quem não se lembra, recorda-se que Fukuyama, assessor intelectual do presidente dos EUA...