A bomba relógio

Manuel Gouveia

Num texto recente, e razoavelmente asseado no que respeita à reposição da verdade histórica sobre a II Guerra Mundial, Putin acusa Lénine de ser o responsável por ter deixado na Constituição da URSS uma bomba relógio que levaria à sua implosão.

De que fala Putin? Do papel de Lénine para que a Constituição da URSS contivesse as seguintes características: que as diferentes Repúblicas se associavam à Rússia num União de Repúblicas iguais, em vez de aderirem à República Federativa da Rússia; que essas Repúblicas tinham o direito, a qualquer momento, de abandonar a União.

Lénine aplicou coerentemente o direito à auto-determinação das Nações, e contribuiu decisivamente para que com o fim do Império russo, «uma imensa prisão de povos», um vasto conjunto de Estados independentes nascesse, a maioria dos quais escolheu então unir-se na URSS. Simultaneamente a URSS dava alento à luta dos povos oprimidos de todo o mundo, que iriam liquidar o colonialismo.

É verdade que o imperialismo utilizou as características multinacionais da URSS para a atacar e destruir, incluindo o facto da sua Constituição ser a mais democrática do mundo. Dividir para reinar é uma estratégia antiga. Mas o sucesso que viria a alcançar depois de 70 anos não se deveu à democrática fórmula constitucional: foi necessário um conjunto de degenerescências no Estado Soviético.

Lénine, e Estáline, que primeiro discordou mas depois assimilou e defendeu esta posição de Lénine, foram dirigentes de um Partido de vanguarda na luta pelo socialismo, foram dirigentes do Estado dos trabalhadores, lutavam pela emancipação dos trabalhadores e de todos os povos: não construíam impérios.

O pleno respeito pela autodeterminação das Nações não é uma bomba relógio: é um pilar indispensável à construção de um futuro de paz e cooperação entre os povos. Só que não é o único pilar.



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