Abril, Maio… Setembro

Vasco Cardoso (Membro da Comissão Política)

Os 75 anos da Vi­tória sobre o nazi-fas­cismo trans­portam con­sigo a chama da tal es­pe­rança que não ficou nem fica à es­pera. Um acon­te­ci­mento de sig­ni­fi­cado uni­versal, con­quis­tado de­pois de 50 mi­lhões de mortos, dos quais mais de 20 mi­lhões so­vié­ticos, dando a maior das con­tri­bui­ções para pôr fim aos ob­jec­tivos do III Reich e do grande ca­pital alemão que o su­por­tava.

O surto cons­ti­tuiu uma opor­tu­ni­dade para os cír­culos mais re­ac­ci­o­ná­rios

Como foi pos­sível? Como foi pos­sível as­sistir à des­truição em massa de ci­dades, vilas e al­deias? Aos campos de con­cen­tração e ao tra­balho for­çado? Aos corpos amon­to­ados, des­truídos pela fome ou pela do­ença? À per­se­guição e as­sas­sínio de co­mu­nistas? Ao ex­ter­mínio de ju­deus e ci­ganos? À uti­li­zação de armas de des­truição mas­siva cul­mi­nando com a bomba ató­mica lan­çada pelos EUA sobre Hi­ro­xima e Na­ga­saqui? Em nome de quê?

E com que apoios? Com que forças con­taram Hi­tler e o par­tido nazi para se lan­çarem nessa di­recção? Quem co­la­borou? Quem fingiu que nada era con­sigo? Quem se es­condeu e de­sistiu? E quem avisou, e quem se le­vantou, e quem re­sistiu?

As res­postas, com ver­dade, a muitas destas per­guntas, mais do que nunca, são ne­ces­sá­rias. Tal como é ne­ces­sário com­pre­ender que quando os tan­ques nazis in­va­diram a Po­lónia (ini­ci­ando a guerra) com a anuência dos EUA e RU, já tinha sido feito todo um per­curso de as­censão do nazi-fas­cismo em vá­rios países da Eu­ropa (in­cluindo Por­tugal), per­se­guindo e eli­mi­nando ad­ver­sá­rios po­lí­ticos, re­for­çando a com­po­nente re­pres­siva e mi­litar do Es­tado, pro­jec­tando o ra­cismo como ide­o­logia, in­ten­si­fi­cando e de­sen­vol­vendo todo um ar­senal ide­o­ló­gico que atraiu e neu­tra­lizou largos sec­tores da so­ci­e­dade.

A sua ex­pansão foi par­ti­cu­lar­mente fa­vo­re­cida pelo agra­va­mento da pró­pria ex­plo­ração, pelo de­sem­prego, pela ruína das ca­madas in­ter­mé­dias, pelas de­si­gual­dades e in­jus­tiças so­ciais e pela mo­bi­li­zação de po­de­rosos meios de con­di­ci­o­na­mento ide­o­ló­gico que o ca­pital mo­no­po­lista co­locou à dis­po­sição destas forças. As ce­dên­cias, as va­ci­la­ções e trai­ções da so­cial de­mo­cracia também fi­caram com o seu lugar na his­tória.

O fas­cismo e o na­zismo foram der­ro­tados, mas o grande ca­pital nunca pres­cindiu de a eles re­correr se ne­ces­sário. So­bre­tudo, pe­rante as in­sa­ná­veis con­tra­di­ções e agu­di­zação da crise es­tru­tural do ca­pi­ta­lismo que marcam a ac­tu­a­li­dade. E estes sec­tores aí estão, nos go­vernos de vá­rios países in­cluindo na União Eu­ro­peia, em muitos dos par­la­mentos na­ci­o­nais, no dis­curso ofi­cioso que es­corre nos grandes ór­gãos de co­mu­ni­cação so­cial ou nas redes so­ciais. Por­tugal não é ex­cepção.

Fir­meza face à ofen­siva

A si­tu­ação nova criada pelo com­bate ao surto epi­dé­mico e as op­ções do Go­verno PS para lhe fazer frente cons­ti­tuíram uma opor­tu­ni­dade para os cen­tros mais re­ac­ci­o­ná­rios do ca­pital in­ten­si­fi­carem a sua ofen­siva. Não apenas pela pro­moção dos seus pro­ta­go­nistas po­lí­ticos, mas pela pro­moção dos seus va­lores e con­cep­ções e que estão pre­sentes em ma­té­rias tão di­versas como na cam­panha sis­te­má­tica contra o SNS, na cam­panha contra a China (ali­nhada com a ad­mi­nis­tração Trump), na di­fusão do alar­mismo, do medo e da de­lação, na es­tig­ma­ti­zação de ca­madas so­ciais como os idosos, na cri­mi­na­li­zação de grupos ét­nicos como os ci­ganos, no apro­vei­ta­mento de si­tu­a­ções ex­tremas e iso­ladas para de­fen­derem o re­gresso da pena de morte, no bran­que­a­mento dos grupos eco­nó­micos.

In­sere-se nesse quadro, a cam­panha mi­se­rável contra as co­me­mo­ra­ções do 25 de Abril, que subiu de tom pe­rante as ini­ci­a­tivas da CGTP-IN no 1.º de Maio e que agora aponta ba­te­rias di­rec­ta­mente ao PCP e à Festa do Avante! que se irá re­a­lizar daqui... por 4 meses.

Pe­rante essa cam­panha, lá en­con­tramos as mesmas in­com­pre­en­sões, as mesmas va­ci­la­ções, as mesmas ce­dên­cias e até o opor­tu­nismo clás­sico de quem quer estar sempre a favor da cor­rente e que abriram ca­minho aos trá­gicos acon­te­ci­mentos que as­si­na­lamos neste texto. O fas­cismo não avança só pela von­tade do ca­pital. É pre­ciso que muitos se des­viem. Só a luta dos tra­ba­lha­dores e dos povos, só a con­ver­gência dos de­mo­cratas e pa­tri­otas é que lhes trava o passo.




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