O nosso lugar

Gustavo Carneiro

Em 1848, publicámos um Manifesto em que dissemos abertamente ao que vínhamos. Anos depois, estávamos entre os que, nas barricadas da Comuna, tentaram tomar o céu de assalto. Perante a traição generalizada, estivemos quase sós, mas firmes, contra a carnificina de povos que foi a guerra imperialista. Da fria Petrogrado mostrámos ao mundo que a exploração e a opressão não tinham de ser eternas e que a terra sem amos era, de facto, possível.

Quando o fascismo quis dominar o mundo, encontrou-nos pela frente, onde quer que fosse: dos bairros de Paris e Roma às montanhas balcânicas, das estepes russas aos arrozais da China. Mudámos vezes sem conta de identidade e de casa, imprimimos e distribuímos jornais, sabotámos vias férreas e equipamentos militares, organizámos greves, liderámos exércitos, libertámos países. Enfrentámos carcereiros, torturadores e pelotões de fuzilamento e vimos partir muitos dos que nos eram mais queridos.

Em Maio de 1945, hasteámos a bandeira vermelha no ponto mais alto de Berlim: vencemos, com imensos sacrifícios, nossos e de muitos outros. Ninguém mais do que nós sabe quanto custou a liberdade e a paz.

Caladas as armas, lançámo-nos à construção de um mundo novo. Marchámos à frente de milhões para evitar novas guerras. Apoiámos os povos que não queriam mais permanecer submissos. Ajudámos a derrubar impérios coloniais e a redesenhar o mapa do mundo. Mostrámos que a saúde, a educação, a habitação ou a infância não tinham de ser privilégios de alguns, mas direitos de todos.

Tentámos construir as sociedades pelas quais nos batíamos. Experimentámos, acertámos, errámos, corrigimos, avançámos, recuámos. Umas vezes sofremos derrotas, por vezes duras. Noutras, resistimos e encontrámos forças para prosseguir. Com tudo aprendemos. Em cada recanto da Terra, combatemos a exploração, o desemprego, a opressão, as guerras dos que se julgam donos do mundo. Por mais de uma vez nos decretaram a morte. Em todas se enganaram.

Perante este percurso, não é de admirar que, em tempo de pandemia, estejamos na linha da frente em defesa da saúde e dos direitos. Nas organizações populares chinesas e nas brigadas médicas internacionalistas cubanas. Na República Socialista do Vietname e no Estado indiano de Kerala, onde se registam baixíssimas taxas de incidência e mortalidade por COVID-19. E, por cá, onde quer que haja um protesto para fazer, uma proposta para apresentar, uma luta para travar, um direito para defender. Não estamos sozinhos, nunca o estivemos, mas a nós, comunistas, saberão sempre onde nos encontrar: na frente de qualquer combate justo, por mais difícil que se apresente.

Não somos todos iguais, temos aliás muitas diferenças entre nós. Mas sabemos bem qual é o nosso lugar.




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