O Revelador
As crises funcionam como reveladores. Expõe elementos da realidade que já lá estavam, já eram nucleares, mas só com a crise sobem à consciência de milhões.
Um desses elementos é o da precariedade laboral que grassava como consequência de uma organização do trabalho assente na sistemática subcontratação. Já era mentira, quando o governo afirmava que a precariedade estava a baixar, pois a verdade é que ela tem subido, incluindo nos últimos 5 anos. Quando a actual crise começou, as grandes empresas limitaram-se a cortar o ténue fio que as ligava às prestadoras de serviços, e centenas de milhar ficaram desempregados ou foram parar ao lay-off. Muitos descobriram num segundo o que significa ser trabalhador efectivo numa relação precária. Ao mesmo tempo que essas grandes empresas ainda podiam presumir, quando lhes fazia falta, que não tinham despedido ninguém, nem mandado ninguém para lay-off, protegendo as suas marcas da publicidade negativa.
O mesmo aconteceu a largos milhares de falsos empresários que descobriram, do dia para a noite, que eram proletários, e que o falso contrato de prestação de serviços que tinham não era mais que um contrato de trabalho fácil de rasgar pelo patrão.
Entretanto, vão-se implantando as multinacionais especializadas na intermediação deste processo de precariedade. Uma das maiores, a Randstad, capturou, para a grande burguesia holandesa que a detém, algo como 710 milhões de euros de lucros em 2019.
Isto está tudo errado. Vivemos num modelo ultra-regulado que determina a estabilidade dos lucros e a precariedade da vida dos trabalhadores quando era tão possível planificar a economia para satisfazer as necessidades humanas. Mas mesmo errado, isto vai continuar depois da crise, enquanto continuarem a mandar aqueles – poucos, muito poucos – para quem isto está tudo certo.