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Luís Carapinha

Ataque «total» à China é o mote da estratégia eleitoral republicana

A cruzada anti-China inflamada desde a Casa Branca e a cúpula do Partido Republicano atinge níveis frenéticos. Ataque «total» à China é o mote da estratégia eleitoral republicana, segundo um ­memorandum interno divulgado pela imprensa, o que mostra o estado de nervosismo que infecta a direcção do partido de turno do poder de Washington.

A perspectiva que, até recentemente, se abria de uma reeleição relativamente descansada de Trump, perante um Partido Democrata imerso na mediocridade e turbulência interna, viu-se subitamente ameaçada pela devastação da pandemia nos EUA e o abalo económico daquela que já se apresenta como a pior recessão desde os tempos da Grande Depressão. Subvertendo a verdade dos factos, os altos-responsáveis dos EUA revezam-se no ritual de culpabilização de Pequim. Apontam em especial o dedo ao Partido Comunista da China.

O caudal de insanidades transformado em aluvião pretende sacudir a água do capote das responsabilidades da Administração Trump e do imperialismo norte-americano na tragédia da COVID-19 nos EUA. Em comparação com a China, o país conta com 10 vezes mais casos de contágios e óbitos, embora o número de habitantes dos EUA represente menos de um quarto da população chinesa. Contrastando com as cerca de 800 bases militares instaladas pelo globo, não se conhece um caso de envio pelos EUA de uma equipa médica de auxílio internacional. Enquanto isto, a ponte aérea de equipamentos médicos da China para todo o mundo, incluindo os EUA, não cessa.

O incremento da agressividade do imperialismo não é novidade perante um quadro de redobrada incerteza e aprofundamento da crise estrutural. Washington procurará agora intensificar ainda mais a campanha de guerra comercial e tecnológica desatada contra a China. Multiplicando as pressões e chantagens em todas as frentes. A recessão em curso é vista como oportunidade suplementar para arremeter com maior ferocidade contra o papel incontornável da China nas cadeias de valor e produção à escala mundial.

Contudo, do interior do sistema chegam vozes que refreiam o monumental bluff: segundo o CEO da Apple, «a China evoluiu para uma indústria muito avançada» em que se cruzam «a perícia do artífice, a robótica sofisticada e o mundo da ciência da computação. Esse cruzamento que é muito raro encontrar em qualquer [outro] lugar». E acrescenta: «os EUA não têm engenheiros para fazer um smartphone (...), não temos engenheiros suficientes para expandir a produção industrial dos EUA numa margem significativa. Em 2015, a China graduou seis vezes mais engenheiros» (Asia Times, 14.04.2020). Até aqui chegou o processo de estagnação na potência central imperialista. Ao contrário da China, os EUA não têm hoje uma cadeia industrial completa.

A dimensão dramática da pandemia no país e os cerca de 30 milhões de trabalhadores lançados para o desemprego no último mês e meio são também as marcas de um declínio crescentemente visível. Se em 1960 o PIB dos EUA representava 40 por cento do produto mundial, em 2019 o seu peso reduziu-se a 15 por cento. Os efeitos deste processo na relação básica de forças no mundo são inevitáveis. Para Pequim, o mundo assiste à maior mudança em 100 anos. Mas nunca também foram tão graves as ameaças à paz colocadas pelo imperialismo como nos tempos em que vivemos.



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