Nem um direito a menos!

Margarida Botelho

«Vai para casa e de­pois logo se vê», «os seus ser­viços são dis­pen­sados», «mete fé­rias, temos que ser uns para os ou­tros», «isto está tudo assim, queres o quê?», «nas fé­rias da Páscoa também ti­nhas so­lução para os putos», «temos que apro­veitar agora, toda a gente pre­cisa dos nossos ser­viços», «vais para casa, mas é para estar on-line 8 horas e sexta-feira en­tregas o tra­balho», «tem pa­ci­ência, tens que fazer o ho­rário duplo», «e con­tenta-te com o que es­tiver na conta no fim do mês», «um metro de dis­tância? que ma­ri­quice!», «todos os tem­po­rá­rios devem medir a tem­pe­ra­tura cor­poral antes de en­trar ao ser­viço», «qual é a parte de isto é uma guerra que tu ainda não per­ce­beste?».

Por todo o lado, estas frases ouvem-se nas em­presas e nos lo­cais de tra­balho e trans­formam-se em duras re­a­li­dades na vida de tra­ba­lha­dores de todos os sec­tores. Tudo en­volto na in­cer­teza do dia de amanhã, no medo de uma do­ença des­co­nhe­cida, no iso­la­mento. Mesmo em em­presas onde o nível de lu­cros acu­mu­lados ao longo de dé­cadas não deixa ne­nhum cré­dito à ideia de que - coi­ta­di­nhos!, es­tamos todos no mesmo barco - nem uma se­mana de es­tado de emer­gência aguentam.

Não tem que ser assim, não pode ser assim. A res­posta à epi­demia não está na lei da selva, no salve-se quem puder, na ex­plo­ração. Não se ataca esta do­ença com uma po­pu­lação em­po­bre­cida, as­sus­tada e iso­lada. Re­solve-se com mais di­reitos, não com menos. Ga­ran­tindo sa­lá­rios e ren­di­mentos, ser­viços pú­blicos pró­ximos e de qua­li­dade, cui­dando dos sec­tores mais frá­geis da po­pu­lação. Com in­ves­ti­mento pú­blico e in­ter­venção do Es­tado para não ad­mitir abusos, açam­bar­ca­mentos e apro­vei­ta­mentos, ile­ga­li­dades de toda a ordem nas em­presas e nos lo­cais de tra­balho.

Não, não es­tamos so­zi­nhos nisto. Os sin­di­catos con­ti­nuam a fun­ci­onar, à dis­tância do de­le­gado sin­dical, de um te­le­fo­nema ou de um e-mail. O PCP, que nunca faltou onde houve um pro­blema e uma luta, está onde sempre es­teve: ao lado dos tra­ba­lha­dores e do povo, a fun­ci­onar, a or­ga­nizar a de­núncia e a re­sis­tência às in­jus­tiças, a de­fender a saúde e os di­reitos. Nem um di­reito a menos!




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