Multas por pagar
Não se pretende convencer aqui ninguém de que os graves problemas que atingiram o sistema financeiro português teriam a sua resolução se fosse outra a intervenção dos ditos reguladores como o Banco de Portugal ou a Comissão de Mercados e Valores Mobiliários. Ou se porventura a ética dos banqueiros e dos altos quadros das administrações dos bancos fosse outra. O problema é bastante mais fundo e tem a sua origem na submissão do poder político aos interesses do capital monopolista. Desde as privatizações do sector financeiro, aos chamados resgates e «resoluções» de bancos, passando pela crescente concentração monopolista e «desnacionalização» da economia (com a intervenção directa da União Europeia e dos seus instrumentos) que conduziu à triste realidade de, com excepção da Caixa Geral de Depósitos – por sinal pública –, a «banca portuguesa» estar hoje, de grosso modo, sob domínio do grande capital espanhol, tudo isto mostra que, tal como o Partido tem afirmado, o crédito é um bem público demasiado importante para que possa ser gerido por interesses privados.
Ora acontece que, segundo o Jornal de Notícias, uma parte significativa das multas aplicadas a banqueiros, decorrentes dos processos fraudulentos que estiveram na origem do colapso das instituições que geriram, estão hoje ainda por pagar. Os valores envolvidos (na casa das dezenas de milhões de euros) são, na realidade, uma ninharia, se comparados com os cerca de 20 mil milhões de euros de recursos públicos que, só na última década, foram mobilizados para tapar os buracos da corrupção e da especulação na banca privada. Mas não deixa de ser revelador de que indivíduos como Ricardo Salgado (BES), Oliveira e Costa (BPN) e outros, se consigam furtar, pelas mais diversas manobras dilatórias e alçapões legais, ao pagamento das respectivas multas que lhes foram aplicadas. Na verdade, mesmo depois de caírem em desgraça, passando de figuras de proa do regime a bode expiatório dos males da economia nacional, estes cavalheiros de distinta classe continuam a contar com protecção e privilégios que são negados, e bem, à esmagadora maioria da população. Ou não é assim?!