Impressões

Anabela Fino

O Taj Mahal foi po­lido para dis­farçar as man­chas cas­ta­nhas e verdes pro­vo­cadas pela po­luição e pelos ex­cre­mentos de in­sectos. Em Ah­me­dabad, re­duto po­lí­tico do pri­meiro-mi­nistro in­diano Na­rendra Modi, foi inau­gu­rado o maior es­tádio de crí­quete do mundo com um co­mício em que par­ti­ci­param 100 mil pes­soas.

O que mo­tivou tudo isto? Nada mais nada menos do que a curta vi­sita do pre­si­dente dos EUA à Índia, esta se­mana.

A des­lo­cação fez parte da cam­panha de Trump para a re­e­leição – é bom não es­quecer que 2,4 mi­lhões de elei­tores norte-ame­ri­canos têm origem in­diana –, para além de ser uma óbvia ten­ta­tiva de con­tra­ba­lançar a in­fluência da China no país. Já para Modi, seu ad­mi­rador con­fesso, a vi­sita, que se segue à de Jair Bol­so­naro há menos de um mês, serviu para tentar re­forçar o seu re­co­nhe­ci­mento in­ter­na­ci­onal numa al­tura em que au­menta a con­tes­tação in­terna de­vido ao ar­re­fe­ci­mento da eco­nomia, o au­mento das de­si­gual­dades e, em par­ti­cular, à emenda à lei de ci­da­dania, as­si­nada no fim de 2019, que dis­cri­mina a po­pu­lação mu­çul­mana (14,2% da po­pu­lação, ou seja 177 mi­lhões de pes­soas, de acordo com o censo de 2011).

A es­colha dos ali­ados não deixa dú­vidas quanto ao rumo po­lí­tico es­co­lhido por Modi, para quem as de­sig­na­ções de «mo­de­rado» e «con­ser­vador» são há muito ma­ni­fes­ta­mente aper­tadas. E se é um facto que no do­mínio eco­nó­mico há ainda arestas a limar nas re­la­ções com os EUA, não é menos certo que a di­reita in­diana e norte-ame­ri­cana se con­certa e en­tende na lin­guagem be­li­cista.

«En­quanto con­ti­nu­amos a for­ta­lecer a nossa co­o­pe­ração na de­fesa, os EUA estão an­si­osos para for­necer à Índia al­guns dos me­lhores e mais te­midos equi­pa­mentos mi­li­tares do pla­neta», disse o pre­si­dente norte-ame­ri­cano du­rante o seu dis­curso no es­tádio Mo­tera, onde de­correu o co­mício em sua honra – Na­maste Trump. Na agenda es­tava a as­si­na­tura de acordos no valor de três mil mi­lhões de dó­lares para a venda de he­li­cóp­teros mi­li­tares, o que torna os EUA o maior par­ceiro da Índia na área da de­fesa.

Como é da praxe nestes dis­cursos, Trump falou da de­mo­cracia «es­tável e prós­pera» da Índia, que clas­si­ficou como um «país gran­dioso e livre», como uma «nação to­le­rante».

Não consta que tenha ha­vido qual­quer re­fe­rência ao muro no­vinho em folha, com um metro e oi­tenta de al­tura e outro tanto de com­pri­mento, man­dado cons­truir por Modi ao longo da es­trada pró­xima do ae­ro­porto por onde passou a co­mi­tiva. Trump não es­tra­nhou; como se sabe, gosta de muros. Seja para conter emi­grantes, pa­les­ti­ni­anos ou os po­bres dos bairros de lata.

Ah, é ver­dade, Mar­celo também por lá passou, entre Bol­so­naro e Trump. Ficou «muito im­pres­si­o­nado pela per­so­na­li­dade po­lí­tica do pri­meiro-mi­nistro» Modi, disse. Ele lá sabe porquê.




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