Preconceito, sem técnica

Anabela Fino

Os direitos humanos, nunca é demais lembrá-lo, são universais, o que significa que são válidos para todos, sem qualquer tipo de discriminação ou diferenciação; estão inter relacionados, ou seja, a falta de um pode pôr em causa todos os outros; são inalienáveis: ninguém pode abrir mão dos seus direitos; e são imprescritíveis, isto é, os direitos humanos não têm prazo e não perdem a validade.

Se se tiver presente que princípios tão elementares como estes levaram milénios a conquistar e que mesmo assim ainda hoje são diariamente violados, forçoso se torna concluir que não pode haver contemplações com o que ou quem os põe em causa. Trata-se de direitos que não podem ser cerceados por nenhum tipo de discriminação, seja de cor, religião, nacionalidade, género, orientação sexual ou política.

E se a condenação dos ataques soezes – como aqueles a que temos assistido por cá – é um dever irrecusável, não é menos importante a denúncia de situações que, aparentando condenar a discriminação, são na realidade manifestações de racismo.

Um exemplo recente chega-nos dos EUA e choca pelo que revela sobre a dimensão do preconceito. Conhecidos que foram os nomeados para a edição dos Óscares deste ano, vários média criticaram a Academia pela sua falta de diversidade. Revistas como a Deadline ou a Vanity Fair escreveram nos seus sites que António Banderas e Cynthia Erivo eram os únicos «actores não brancos» nomeados. Posteriormente, emendando a mão (???), a Vanity Fair apagou a frase, fazendo questão de esclarecer que «os espanhóis não são tecnicamente considerados pessoas ‘de cor’».

É caso para dizer que foi pior a emenda do que o soneto. Nem é preciso ser-se latino para reconhecer o racismo.




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