Trapaça do Século
Os palestinianos rejeitam, como um só, a «Trapaça do Século»
O «plano do Século» apresentado na semana passada pelo Presidente Trump e por Benjamin Netanyahu, primeiro-Ministro em gestão corrente de Israel, rasga duma assentada sete décadas de resoluções da ONU sobre a questão palestiniana e até os acordos, como Oslo, promovidos sob a égide dos EUA.
Concebido, escrito e apresentado pelos EUA e Israel, à revelia dos representantes do povo palestiniano e das Nações Unidas, o plano Trump-Netanyahu abre caminho à anexação por Israel de quase metade da Margem Ocidental, incluindo o Vale do Jordão e a quase totalidade dos colonatos. Jerusalém tornar-se-ia «capital indivisa de Israel».
Confirma-se que a construção dos colonatos e do Muro do Apartheid eram uma estratégia de longo prazo para criar o Grande Israel em todo o território histórico da Palestina. O plano do Século prevê bantustões para os palestinianos, sem contiguidade territorial nem viabilidade enquanto Estado e sob o controlo militar de Israel. Nega o direito às águas territoriais, como o mar em frente à Faixa de Gaza, que ficariam – juntamente com as reservas de gás que aí foram descobertas – sob o controlo de Israel. Proíbe o regresso de palestinianos da diáspora, inclusive aos bantustões.
Israel é campeão da violação do direito internacional e das resoluções da ONU. O infractor está agora a ser premiado pelo seu padrinho de sempre. Mal fará quem acreditar nas parcas promessas contidas no plano Trump-Netanyahu. O Ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett, já declarou que nunca reconhecerá qualquer Estado Palestiniano e o Embaixador dos EUA em Israel, David Friedman, usando a linguagem de todos os colonizadores sobre os povos colonizados, afirmou numa reunião à porta fechada «com dirigentes judaicos e cristãos evangelistas» dos EUA que «levará um tempo considerável até que os palestinianos construam as instituições de que precisam para ter um Estado plenamente capaz de funcionar» (Times of Israel, 30.1.20).
Vinda no rescaldo do rompimento unilateral pelos EUA de numerosos outro acordos e convénios (do Tratado INF aos acordos climáticos e comerciais), a «Trapaça do Século» confirma que os EUA são negociadores de má fé, para quem os acordos de hoje valem apenas na medida em que sirvam para melhor preparar as agressões e as dominações de amanhã. A «abertura» inicial manifestada pela UE e a generalidade dos seus governos (incluindo o português) ao plano Trump-Netanyahu é reveladora, não obstante um recuo posterior. Apesar dos desaguisados entre as duas margens do Atlântico Norte, é forte a subordinaçao ao padrinho norte-americano, mesmo quando em causa está o direito internacional e a própria credibilidade da ONU. As promessas de alguns em apoio à criação dum Estado palestiniano revelam-se ocas e cúmplices da traição às justas e legítimas aspirações nacionais do povo palestiniano.
A rejeição da «Trapaça do Século» foi unânime pelo lado palestiniano. Espezinhados e humilhados, não obstante as múltiplas e enormes concessões que os seus dirigentes aceitaram, a troco de promessas sempre violadas da criação dum Estado soberano, o povo palestiniano encontra-se hoje perante uma situação de enorme complexidade e dificuldade. Em que a solidariedade internacional ganha ainda mais importância.