«Acordo do Século» e crimes de guerra

Filipe Diniz

É preciso estômago – tal o cinismo da coisa – mas é impossível ignorar o Acordo do Século avançado por Trump.

É certo que os poucos aplausos que recebeu se restringem sobretudo ao sionismo mais radical. Mas o martírio da Palestina arrasta-se sob a contemporização de muitos outros estados. Vários (incluindo a UE no seu conjunto) condenam em palavras a expansão sionista e a desumana situação imposta aos palestinianos. Mas, sendo alguns tão pródigos em alinhar em sanções e outras formas de pressão internacional, nada encontram de construtivo que fazer em defesa dos palestinianos e dos seus direitos.

Merece a pena olhar para os mapas que Trump apresentou para o «Estado palestiniano». Seriam inacreditavelmente ridículos se não fossem trágicos. Tal «Estado» seria um arquipélago de fragmentos territoriais, ainda assim minados de «enclaves comunitários» – os colonatos israelitas, actuais e futuros. A Cisjordânia (1/3 da qual, a margem do Jordão, Israel anexaria) e a Faixa de Gaza seriam ligadas por um túnel, por baixo de território israelita. O único acesso a porto de mar seria em território israelita. E isto é um «mapa genérico». No limite, aquilo que Arafat exprimiu um dia: «os palestinianos nem têm terra onde enterrar os seus mortos.»

E estes mapas podem ter outras leituras. Uma delas: o Tribunal Penal Internacional considera estar «suficientemente convicto» de que foram ou estão a ser cometidos crimes de guerra nos territórios ocupados e avança com o respectivo processo. Trata-se agora de estabelecer o âmbito territorial sobre o qual pode exercer a sua jurisdição, concretamente a Faixa de Gaza, Jerusalém Leste, Cisjordânia. Os mapas de Trump ecoam a posição de Israel: não só comete impunemente crimes de guerra como veda o território onde os comete à jurisdição desse Tribunal.




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