Maidangate

Luís Carapinha

Na Ucrânia há um poder ditatorial subordinado ao intervencionismo dos EUA

A questão ucraniana irrompeu no centro da convulsão política nos Estados Unidos no momento em que a campanha para as eleições presidenciais de 2020 já aquece os motores. O processo de impeachment de Trump tomou como lebre as acusações de que este pressionou o presidente da Ucrânia, Zelenskiy, a investigar os negócios do filho de J. Biden, ex-vice-presidente dos EUA e pré-candidato do Partido Democrata às eleições do próximo ano, suspendendo para o efeito um cheque de quase 400 milhões de dólares de fornecimentos militares. Referentes à ‘ajuda letal’ ao regime oligárquico neofascista de Kiev aprovada por Trump que acabou por ser pouco depois desbloqueada e que Pompeo considera vital para conter a Rússia. Sendo hoje pouco provável que a impugnação de Trump passe no Senado, onde os republicanos estão em maioria, não são claros os impactos do processo na votação de 2020. Um autor da Foreign Affairs considera que os EUA vivem «a mais grave crise constitucional desde o Watergate» e nos últimos meses rios de tinta foram impressos em torno do chamado Ukrainegate. É claro que a instrumentalização das relações e negócios opacos com a Ucrânia ao sabor da exacerbada pugna nos EUA subverte a sua essência e abafa o papel de ingerência do imperialismo norte-americano como principal corruptor da política ucraniana nas últimas duas décadas. Com as consequências conhecidas para a ex-república soviética, do desmantelamento da capacidade industrial e científica à destruição da economia e abdicação da soberania nacional.

Sob o fogo do Ukrainegate vieram a lume as negociatas de membros da entourage de Trump com oligarcas ucranianos ainda na gestão do presidente Ianukóvitch, deposto no golpe da Maidan. Mas não só. Ganhou novo alento o escândalo da lavagem de dinheiro envolvendo o filho de Biden quando este era o principal curador da política ucraniana da Administração Obama. Biden não teve pejo em vangloriar-se à imprensa do ultimato feito em Kiev ao então presidente pós-golpe de 2014, Porochenko: «Parto dentro de seis horas. Se o procurador [-geral da Ucrânia, Chokin] não for demitido não recebem o dinheiro [um empréstimo dos EUA de mil milhões de dólares]. (…) Ele foi demitido». Tudo, claro, em nome da ‘luta contra a corrupção’. O que Biden não contou é que Chokin pegara na investigação criminal à empresa de gás ucraniana Burisma e aos membros da sua administração, incluindo o seu filho, Hunter Biden. Do mesmo modo, têm vindo a público as ligações obscuras entre fundos abutre dos EUA e a corrupção na Ucrânia durante os governos tanto de Ianukóvitch como Porochenko, nomeadamente, as falcatruas com transacções de títulos da dívida ucraniana que se saldaram num roubo de muitos milhões aos cofres do Estado. Como não recordar aqui a confissão eufórica da subsecretária de Estado, V. Nuland, no rescaldo do golpe da Maidan, de que os EUA haviam investido $5 mil milhões na «democratização» do país? A paixão democrática foi tal que levou ao apogeu de um poder ditatorial subordinado ao intervencionismo externo. À inaudita escalada da corrupção, à guerra no Donbass e ao arbítrio institucionalizado dos grupos neonazis e do ‘partido da guerra’ que ditam hoje as linhas vermelhas da política de Kiev. É este o verdadeiro rosto oculto do Ukrainegate no pântano de lama de Washington.




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