Victor e Daniela

Gustavo Carneiro

Victor e Daniela nunca se conheceram, nem tal teria sido possível, pois quando ela nasceu já ele tinha morrido há uma década. Mas têm muito em comum. A nacionalidade chilena, desde logo, mas também uma mesma apetência pelas artes: ele pela música e a poesia, sobretudo, ela pelas actividades circenses e cénicas. Une-os também o amor à liberdade e à justiça e o combate para que uma e outra fossem, mais do que sonhos, realidades vividas por todos e cada um dos seus compatriotas. Em diferentes conjunturas e com graus de empenhamento diversos, ambos juntaram o seu talento à luta do seu povo. Mas, tragicamente, há algo mais a uni-los.

Ele é Victor Jara, professor, compositor e músico, comunista, apoiante da Unidade Popular e dedicado construtor do Chile democrático a caminho do socialismo. A 11 de Setembro de 1973, quando a traição tomou conta da sua pátria, foi preso e detido num estádio em Santiago, transformado pelos militares fascistas em campo de concentração e tortura. Quando o seu cadáver foi encontrado, dias depois, tinha marcas de 44 balas, diversos ossos partidos e as mãos quebradas.

Ela é Daniela Carrasco, artista de rua conhecida como La Mimo, presença habitual nas avenidas e praças de Santiago do Chile. Nos primeiros dias dos protestos populares que desde há mais de um mês mobilizam milhões de chilenos lá estava ela, unindo a sua arte silenciosa ao enorme clamor popular que exige uma nova Constituição que ponha fim ao neoliberalismo, à violência e à impunidade. Há dias, apareceu enforcada, com marcas de violação, num bairro ao sul da capital. Segundo vários relatos, foi vista viva pela última vez quando estava a ser detida pela polícia.

Nem Victor nem Daniela foram casos isolados. Se o golpe de Pinochet e a ditadura que instaurou foram responsáveis por muitos milhares de mortos e «desaparecidos», a repressão dos actuais protestos já levou a inúmeras detenções e provocou para cima de duas dezenas de vítimas mortais. Ao mesmo tempo, mais de 200 pessoas perderam pelo menos um olho, devido a essa inovação israelita, disseminada por vários países, que são os disparos directos ao rosto.

Entretanto, o povo chileno permanece mobilizado na luta pelos seus objectivos. Sobre o presidente Sebastian Piñera pende já uma acusação constitucional devido à violência. A selecção de futebol decidiu não entrar em campo em protesto pela repressão. A cantora Mon Laferte surgiu na cerimónia de entrega dos Grammy Latinos com a frase No Chile torturam, matam e violam inscrita no peito.

Mas nada disto parece impressionar os media ocidentais, a democrática União Europeia ou o inefável Santos Silva, tão lesto a reconhecer Guaidó na Venezuela e que ainda não teve uma palavra para a repressão no Chile ou para o golpe na Bolívia.




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