Outro Novembro

Filipe Diniz

Outro Novembro é, por exemplo, o de 1919. A intervenção da Grã-Bretanha na Guerra Civil da Rússia ao lado dos «russos brancos» mobilizara uma frota para o Mar Báltico. Tinha por objectivo apoiar os independentistas estónios e letónios e a tomada de Petrogrado pelos contra-revolucionários, objectivo que para estes era central. Traiu os primeiros e falhou no apoio aos segundos.

O envio dessa frota desencadeou revoltas das tripulações tanto nos portos de embarque como no Báltico. A história contada em inglês disfarça a coisa: «estavam fartos de guerra, mal alimentados e alojados, não tinham tido tempo de licença», mas haveria também «efeitos da propaganda bolchevique» nessa atitude.

O certo é que o fracasso da intervenção imperialista na guerra civil – tal como fracasso do bloqueio económico desencadeado após a revolução – é também resultado do descrédito da classe dominante nos países agressores, do enorme prestígio conquistado pela Revolução Bolchevique, da esperança mundial que suscitou, da confiança dos «de baixo» em que, com ela, tinham passado a ter uma palavra a dizer sobre «tudo o que lhes dissesse respeito».

Em intervenções da altura, Lénine refere que o maior êxito soviético nesses curtos anos é a conquista da paz, e esta não resulta apenas da vitória do Exército Vermelho. A agressão militar fora então o único instrumento possível do imperialismo. O «poder soviético venceu – no sentido de que a simpatia das massas trabalhadoras foi já conquistada por toda a parte». Era apenas um começo.

Vários dos marinheiros amotinados foram presos e condenados a trabalhos forçados. Fazem parte dos vencedores, não dos derrotados. Há muitos novembros, e muito caminho a andar.




Mais artigos de: Opinião

O PCP e o Orçamento do Estado para 2020

As eleições de Outubro deste ano ditaram um quadro político institucional que, tal como se verificou na anterior legislatura, é determinado quer pela arrumação de forças existente na Assembleia da República quer pelas opções do Governo.

Victor e Daniela

Victor e Daniela nunca se conheceram, nem tal teria sido possível, pois quando ela nasceu já ele tinha morrido há uma década. Mas têm muito em comum. A nacionalidade chilena, desde logo, mas também uma mesma apetência pelas artes: ele pela música e a poesia, sobretudo, ela pelas actividades circenses e cénicas. Une-os...

«Amigos da onça»

Segundo a Lusa, o primeiro-ministro do governo do PS, António Costa, disse esperar ter uma relação «o mais próxima possível e de grande colaboração mútua» com Ursula von der Leyen, dias antes da votação no Parlamento Europeu sobre a composição da Comissão Europeia. «É essencial na Europa – acrescentou – todos...

«Casa da Rússia»

Assim se chama o livro de 1989 de John le Carré sobre a espionagem do MI6 britânico contra a União Soviética, conduzidas por uma equipe que, pelos vistos, está activa para além da ficção. Em Lisboa, no Forte da Ameixoeira, sede do SIRP, há uma «Casa da Rússia» que integra o SIS e trata das «ameaças» da Rússia e do leste...

Sem máscara

As hipócritas máscaras ‘democráticas’ do imperialismo dão lugar ao apadrinhamento descarado do fascismo, da violência e do golpismo. Os EUA rasgam impunemente os tratados que assinaram: da Palestina ao controlo de armas, do comércio ao clima e ao Irão. Os seus golpes de Estado e subversões envolvem cada vez mais o roubo...