Povo do Sudão exige justiça e governo civil
No Sudão, dezenas de milhares de manifestantes concentraram-se na quinta-feira, 18, na Praça Verde, em Cartum, no final de uma semana de acções de massas a exigir justiça para os crimes cometidos pela junta militar desde 11 de Abril, quando os generais afastaram do poder o presidente Omar al-Bashir, pondo fim a uma ditadura de 30 anos. A concentração popular foi convocada pela Aliança para a Liberdade e Mudança, que proclamou no decorrer da manifestação a alteração de nome do local – passou a chamar-se Praça da Liberdade.
Representantes da organização falaram aos manifestantes e reafirmaram a exigência de justiça para todas as vítimas dos militares desde o golpe de Estado de Abril. Realçaram que não se pode esperar que tal justiça seja feita enquanto o poder estiver nas mãos dos militares e denunciaram que o Ministério da Justiça continua a ser dominado pela mesma gente do tempo do antigo regime.
Os oradores na manifestação defenderam que são necessárias mudanças radicais para resgatar o Estado sudanês do controlo do antigo regime e dos generais que constituem o Conselho Militar de Transição. E insistiram que a única forma de restaurar o carácter nacional e democrático do Estado é o estabelecimento de um governo civil e a implementação da Declaração das Forças da Liberdade e Mudança.
Uma nota do Partido Comunista Sudanês, do dia 20, subscrita pelo Secretário da Informação do PCS, Fathi Alfadl, revela que as Forças para o Consenso Nacional publicaram um comunicado condenando o «acordo» alcançado recentemente entre os militares e um grupo da Aliança para a Liberdade e Mudança. Ao mesmo tempo, a Frente para a Libertação do Sudão, um grupo armado, divulgou uma nota de imprensa exigindo a imediata entrega do poder a um governo civil e a concretização de um programa nacional visando a liberdade, a paz e a justiça.
Os comunistas sudaneses informam também que, em Cartum, prosseguem conversações no seio da Aliança para a Liberdade e Mudança no sentido de ultrapassar diferenças e unificar posições na elaboração de documentos fundamentais, assim como em relação à composição do governo. «As negociações com os militares foram adiadas por alguns dias», indica o PCS. E revela também que uma delegação da Aliança para a Liberdade e Mudança está em discussões, em Adis Abeba, com a Frente Revolucionária, tendo em vista «chegar a um entendimento comum sobre as principais questões da paz e o futuro papel dos grupos armados».
Anteriormente, numa outra nota, o PCS esclarecia que estão a decorrer diversas reuniões no seio da Aliança para a Liberdade e Mudança com o propósito de unificar a posição da Aliança como representante do conjunto dos partidos e grupos da genuína oposição em luta pela realização dos principais objectivos do levantamento popular de Dezembro de 2018 – o derrubamento do regime, o seu desmantelamento e a sua liquidação.
Os comunistas e outras forças democráticas do Sudão acusam o Conselho Militar de Transição de ter cometido crimes contra civis que se manifestavam pacificamente. Um dos corpos policiais, a Força de Intervenção Rápida, é responsabilizada pela morte de «centenas de mártires». A recusa, pelo movimento popular, em aceitar a garantia de imunidade para os chefes militares dessa força, que devem ser julgados, esteve na origem do adiamento das conversações entre as duas partes.