Alentejo, terra sagrada do pão

João Dias Coelho (Membro da Comissão Política)

A terra é um bem na­tural, não re­pro­du­tível, mas como bem so­cial pro­du­tivo devia estar ao ser­viço da co­mu­ni­dade. Con­tudo, assim não é nas con­di­ções do sis­tema ca­pi­ta­lista.

Pe­rante a plan­tação de olival e amen­doal in­ten­sivo e su­pe­rin­ten­sivo em vastas áreas do Alen­tejo, cri­ando uma mo­no­cul­tura, há hoje quem ar­gu­mente que em tempos idos, com a cha­mada cam­panha do trigo, o Alen­tejo já teve uma mo­no­cul­tura e não veio daí mal ao mundo.

Para além das não des­pi­ci­endas ra­zões ide­o­ló­gicas que sus­ten­taram a de­cisão do re­gime fas­cista de Sa­lazar, e sendo ver­dade que de­cresceu a área por cul­tivar e au­mentou ex­po­nen­ci­al­mente a pro­dução, a ver­dade é que com­parar a pro­dução de trigo (cul­tura de se­queiro, com o seu ciclo na­tural, dei­xando à terra o tempo de pousio para a sua re­ge­ne­ração) com a de olival ou amen­doal in­ten­sivo ou su­pe­rin­ten­sivo – e não com o olival tra­di­ci­onal, que co­locou o Alen­tejo numa po­sição ci­meira da pro­dução de azeite de alta qua­li­dade – é com­parar o in­com­pa­rável.

Ar­gu­mentar ainda que a zona ocu­pada por este tipo de cul­turas é de apenas 39 mil hec­tares, em três mi­lhões de Su­per­fície Agrí­cola Útil (SAU) em todo o Alen­tejo, é tapar o sol com pe­neira. Eles sabem que estes 39 mil hec­tares estão con­cen­trados nal­guns con­ce­lhos e fre­gue­sias, al­gumas das quais con­cen­tram já mais de mil hec­tares de olival su­pe­rin­ten­sivo. Dizer-se que o con­sumo de água é di­mi­nuto ou que o uso de fi­to­fár­macos não tem im­pacto no am­bi­ente e ecos­sis­temas e na saúde pú­blica é querer vender gato por lebre.

Dizer que o Alen­tejo está fi­nal­mente verde e que a mancha de olival é um grande li­ber­tador de oxi­génio é negar que está em curso uma al­te­ração pro­funda da pai­sagem e da bi­os­fera, cujo efeito a prazo será al­ta­mente ne­fasto para o ter­ri­tório, para a ca­pa­ci­dade re­ge­ne­ra­tiva da terra, para os len­çóis freá­ticos, para o tu­rismo. Dizer ainda que com o au­mento da SAU ocu­pada au­men­taram os postos de tra­balho e, assim, se com­bate o dé­fice de­mo­grá­fico, é «mentir com quantos dentes se tem na boca»: este modo de pro­dução uti­liza fun­da­men­tal­mente mão-de-obra quase es­crava, com cen­tenas ou mesmo mi­lhares de tra­ba­lha­dores tra­zidos do outro lado do mundo a ga­nharem uma «côdea de pão».

Di­ver­si­ficar,
mas de forma sus­ten­tada

Se com a cons­trução do Em­pre­en­di­mento de Fins Múl­ti­plos de Al­queva foi pos­sível cum­prir uma justa e an­ces­tral rei­vin­di­cação dos tra­ba­lha­dores e dos agri­cul­tores alen­te­janos, que o PCP as­sumiu desde a pri­meira hora, e com isso alargar as zonas de re­gadio, po­ten­ci­ando e di­ver­si­fi­cando a pro­dução, não é menos ver­dade que este tipo de pro­du­ções mo­no­cul­tu­rais, pela pressão que exercem sobre os ter­ri­tó­rios, põem em causa até o pa­tri­mónio his­tó­rico-cul­tural, ar­ra­sando ves­tí­gios da pre­sença an­ces­tral, cer­cando al­deias e vilas e apro­xi­mando-se es­can­da­lo­sa­mente das ha­bi­ta­ções.

Não ne­gamos, antes exi­gimos, a ne­ces­si­dade da di­ver­si­fi­cação das cul­turas agrí­colas para re­duzir a nossa de­pen­dência ali­mentar. Mas se este mo­delo de pro­dução in­ten­sivo e su­pe­rin­ten­sivo é o ca­pi­ta­lismo verde que os arautos do sis­tema pro­pagam, di­zemos: não obri­gado!

Não ne­gamos a exis­tência de pro­du­ções in­ten­sivas, mas é ne­ces­sário criar zonas de con­tenção e áreas de plan­tação li­mite por fre­guesia e pe­rí­metro de pro­xi­mi­dade às zonas po­pu­la­ci­o­nais; uma maior fis­ca­li­zação e mo­to­ri­zação ao uso de fi­to­fár­macos e o seu im­pacto na terra, na água, no am­bi­ente, na saúde das po­pu­la­ções; e uma maior in­ter­venção na ve­ri­fi­cação das con­di­ções de tra­balho.

Ne­ces­si­tamos de uma agri­cul­tura sus­ten­tável, fa­zendo uma gestão ra­ci­onal da água, va­lo­ri­zando, pro­te­gendo e apoi­ando o mon­tado tra­di­ci­onal, a pro­dução pe­cuária, trans­for­mando os pro­dutos na re­gião, apoi­ando os pe­quenos e mé­dios agri­cul­tores e os preços à pro­dução, va­lo­ri­zando o tra­balho e os tra­ba­lha­dores.




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