Alentejo, terra sagrada do pão
A terra é um bem natural, não reprodutível, mas como bem social produtivo devia estar ao serviço da comunidade. Contudo, assim não é nas condições do sistema capitalista.
Perante a plantação de olival e amendoal intensivo e superintensivo em vastas áreas do Alentejo, criando uma monocultura, há hoje quem argumente que em tempos idos, com a chamada campanha do trigo, o Alentejo já teve uma monocultura e não veio daí mal ao mundo.
Para além das não despiciendas razões ideológicas que sustentaram a decisão do regime fascista de Salazar, e sendo verdade que decresceu a área por cultivar e aumentou exponencialmente a produção, a verdade é que comparar a produção de trigo (cultura de sequeiro, com o seu ciclo natural, deixando à terra o tempo de pousio para a sua regeneração) com a de olival ou amendoal intensivo ou superintensivo – e não com o olival tradicional, que colocou o Alentejo numa posição cimeira da produção de azeite de alta qualidade – é comparar o incomparável.
Argumentar ainda que a zona ocupada por este tipo de culturas é de apenas 39 mil hectares, em três milhões de Superfície Agrícola Útil (SAU) em todo o Alentejo, é tapar o sol com peneira. Eles sabem que estes 39 mil hectares estão concentrados nalguns concelhos e freguesias, algumas das quais concentram já mais de mil hectares de olival superintensivo. Dizer-se que o consumo de água é diminuto ou que o uso de fitofármacos não tem impacto no ambiente e ecossistemas e na saúde pública é querer vender gato por lebre.
Dizer que o Alentejo está finalmente verde e que a mancha de olival é um grande libertador de oxigénio é negar que está em curso uma alteração profunda da paisagem e da biosfera, cujo efeito a prazo será altamente nefasto para o território, para a capacidade regenerativa da terra, para os lençóis freáticos, para o turismo. Dizer ainda que com o aumento da SAU ocupada aumentaram os postos de trabalho e, assim, se combate o défice demográfico, é «mentir com quantos dentes se tem na boca»: este modo de produção utiliza fundamentalmente mão-de-obra quase escrava, com centenas ou mesmo milhares de trabalhadores trazidos do outro lado do mundo a ganharem uma «côdea de pão».
Diversificar,
mas de forma sustentada
Se com a construção do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva foi possível cumprir uma justa e ancestral reivindicação dos trabalhadores e dos agricultores alentejanos, que o PCP assumiu desde a primeira hora, e com isso alargar as zonas de regadio, potenciando e diversificando a produção, não é menos verdade que este tipo de produções monoculturais, pela pressão que exercem sobre os territórios, põem em causa até o património histórico-cultural, arrasando vestígios da presença ancestral, cercando aldeias e vilas e aproximando-se escandalosamente das habitações.
Não negamos, antes exigimos, a necessidade da diversificação das culturas agrícolas para reduzir a nossa dependência alimentar. Mas se este modelo de produção intensivo e superintensivo é o capitalismo verde que os arautos do sistema propagam, dizemos: não obrigado!
Não negamos a existência de produções intensivas, mas é necessário criar zonas de contenção e áreas de plantação limite por freguesia e perímetro de proximidade às zonas populacionais; uma maior fiscalização e motorização ao uso de fitofármacos e o seu impacto na terra, na água, no ambiente, na saúde das populações; e uma maior intervenção na verificação das condições de trabalho.
Necessitamos de uma agricultura sustentável, fazendo uma gestão racional da água, valorizando, protegendo e apoiando o montado tradicional, a produção pecuária, transformando os produtos na região, apoiando os pequenos e médios agricultores e os preços à produção, valorizando o trabalho e os trabalhadores.