Bruxas e comentadores

Margarida Botelho

O Diário de Notícias publicou no sábado passado um revelador artigo sobre a presença de comentadores nos canais de televisão portugueses, com base num estudo realizado pelo ISCTE a partir da análise a 19 programas durante o mês de Março.

Não é que o estudo e o artigo sejam propriamente surpreendentes. Qualquer telespectador minimamente atento conseguiria chegar sozinho às conclusões expostas: "na televisão, a direita vence a esquerda", como titula o jornal, e que o PCP é o partido menos representado.

A vantagem do estudo e do artigo é a sistematização. A SIC e a TVI, por exemplo, que têm espaços fixos de comentário político ao domingo e à segunda-feira, apresentam as duplas Marques Mendes e Manuela Moura Guedes vs Paulo Portas e Miguel Sousa Tavares, respectivamente. É tanta diversidade que confunde, não é?

A CMTV consegue a proeza de ter a única "lider" em exercício como comentadora, Assunção Cristas, e de promover André Ventura num dos seus programas de futebol.

Um terço dos comentadores de todos os canais estão em espaços de opinião dita pessoal, sem debate nem contraditório. Um pouco ao estilo dos monólogos de Marcelo Rebelo de Sousa durante 15 anos em horário nobre, com o resultado que se sabe, ou dos de Marisa Matias na TVI. Só a RTP não segue este modelo de espaços de comentário individuais. E, pasme-se!, só o PCP e o PEV não têm qualquer militante seu num destes espaços.

O estudo do ISCTE tem um critério de classificação esquerda-direita que é, no mínimo, discutível (contabiliza a candidata do Nós Cidadãos às autárquicas em Lisboa, Joana Amaral Dias, como representante da esquerda). Mas fica tudo mais claro quando faz o levantamento de que partidos são os comentadores do mês de Março: 12 do PSD, 8 do PS, 6 do CDS, 3 do BE e um do PCP. Não há qualquer critério que sustente esta divisão - dizemos nós, claro, mas também o DN e o ISCTE. É como dizem os espanhóis sobre as bruxas: não se acredita em discriminação, mas que la hay, la hay...

 



Mais artigos de: Opinião

A gaffe

Assinalaram-se no passado dia 6 de Junho, em França e na Inglaterra, os 75 anos do desembarque na Normandia. As cerimónias juntaram Trump, Macron, Theresa May, a Rainha Isabel II, Trudeau e Merkel, entre outros. Num momento em que tanto se fala do combate à desinformação e às fake news é profundamente elucidativa a...

Conversa de comadres

Com muito populismo e reaccionarismo à mistura, voltou a preocupação com o «interior», pela voz dos intervenientes no 10 de Junho. Dizendo um o que o outro não quis dizer, lá veio a conversa das divisões artificiais entre os do interior e os do litoral, entre as «elites» de Lisboa e a «arraia miúda» das zonas...

Há que lembrá-lo

Paulo Macedo é um gestor que teve dois momentos, na história recente do País: um, como director-geral dos Impostos (2004-2007), outro, como ministro da Saúde do Governo de Passos Coelho (2011-2015). Em ambos os casos deixou rasto. No primeiro, montou uma máquina fiscal «moderna» ou seja, com capacidade de esmifrar a...

Por que é que fazemos campanhas assim?

«Lá andam eles em campanha eleitoral!». Às vezes a frase é atirada quase como um insulto. Para quem o diz assim, «andar em campanha eleitoral» equivale a vender banha da cobra. Há com certeza forças políticas a quem a carapuça serve. Mas não ao PCP.

Dias E, F, G

As comemorações oficiais dos 75 anos do desembarque na Normandia (Dia D) foram um dia E, de enganos, e um dia F, de fake History. Não foi o Dia D que determinou a derrota do nazismo. Basta olhar para o calendário: o desembarque foi em Junho de 1944. Depois das grandes batalhas que determinaram o desenlace da guerra, e...