Há que lembrá-lo

Henrique Custódio

Paulo Macedo é um gestor que teve dois momentos, na história recente do País: um, como director-geral dos Impostos (2004-2007), outro, como ministro da Saúde do Governo de Passos Coelho (2011-2015). Em ambos os casos deixou rasto.

No primeiro, montou uma máquina fiscal «moderna» ou seja, com capacidade de esmifrar a imensa legião de trabalhadores, pequenos empresários e reformados portugueses até aos locais mais recônditos, na exacta proporção com que deixa escapar em impunidade fiscal a minoria possidente que se entretém a esconder-se em paraísos fiscais.

No segundo caso, como ministro da Saúde de Passos Coelho e em apenas quatro anos, conseguiu lançar o caos no Serviço Nacional de Saúde em meios humanos e técnicos, deu peso e dimensão aos hospitais privados à custa dos dinheiros públicos reservados ao SNS e tentou lançar o País no sistema norte-americano dos seguros de saúde, o sistema de saúde mais indigno e injusto do chamado mundo desenvolvido.

Foi com este palmarés que o Governo de António Costa, por interposto Mário Centeno, o escolheu para presidente da Caixa Geral de Depósitos, onde se mantém até hoje.

Neste posto, Paulo Macedo não mostrou qualquer competência para administrar um banco público, onde o único accionista é o Estado e, por definição, os cidadãos deste País.

É um banco que devia estar ao serviço da economia nacional e das populações, coisa de que Paulo Macedo estará convictamente ausente, como se tem vindo a verificar na sua gestão com taxas crescentes. Nos últimos tempos a sua administração decidiu romper com a colaboração mantida com a Segurança Social, onde o banco público tem cumprido um acto de fulcral importância social: pagar por cheque postal as mensalidades dos pensionistas e dos utentes com subvenções várias. Retirar esse pagamento trata-se de um acto flagrantemente lesivo de pelo menos 100 mil portugueses, na generalidade gente vulnerável e sem recursos, que tem no cheque postal a única forma exequível de receber mensalmente as magras reformas.

Trata-se de uma decisão indigna e incompreensível, sobretudo vinda do banco público nacional. A argumentação expendida pela direcção de Paulo Macedo a justificar o acto – a de que a prestação deste serviço não era «financeiramente interessante» - será adequada na banca privada, que escorropicha dinheiro aos clientes com uma miríade de taxas, mas inadmissível num banco público, onde os proprietários são, em última análise, os cidadãos portugueses, incluindo os 100 mil agora inopinadamente expulsos dos serviços da Caixa.

O Governo de Costa tem de se lembrar que não foi para actos lesivos da população que escolheu Macedo para a chefia da CGD. E, sobretudo, lembrá-lo ao próprio Paulo Macedo.




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