Conversa de comadres
Com muito populismo e reaccionarismo à mistura, voltou a preocupação com o «interior», pela voz dos intervenientes no 10 de Junho.
Dizendo um o que o outro não quis dizer, lá veio a conversa das divisões artificiais entre os do interior e os do litoral, entre as «elites» de Lisboa e a «arraia miúda» das zonas desfavorecidas, entre eles, os políticos, e nós, os cidadãos comuns.
Claro que sobre toda esta conversata, sobre tanta amargura afivelada, perpassa a vontade de esconder o que foi possível avançar nos últimos três anos e meio e, particularmente, o papel que as forças da CDU tiveram nesses avanços. Poderiam ter dito, por exemplo, que já é novamente possível ir diariamente de Lisboa a Portalegre de comboio, porque o PEV assumiu esse combate com grande determinação e obrigou o Governo a repor a circulação na Linha do Leste. Não ainda com todos os horários necessários, mas já um começo.
Estes discursos não resistem a dois minutos de reflexão.
Desde logo porque alguém que dedica uma boa parte da sua vida a fazer comentário político, venha ele em que formato vier – humorístico, artigo de opinião ou comentário televisivo – não se pode colocar do lado de fora da política, pois é um agente dela, e não dos menos importantes.
Depois, porque quem assim fala sabe bem que a contradição central da sociedade actual não se coloca entre as elites de Lisboa e todos os outros, mas entre todos os que ganham a vida com o seu trabalho e os que acumulam riqueza com a sua exploração, estejam eles, uns e outros, em Lisboa, em Bragança, ou em qualquer capital do planeta.
Finalmente, porque os dois oradores sabem bem, por muito que finjam ignorar, que os problemas que persistem na sociedade portuguesa, no interior e no litoral, não podem ser resolvidos no quadro da submissão às imposições, que eles defendem, da União Europeia e do euro, pelo qual, aliás, ninguém lutou e, sobre o qual, os portugueses foram mesmo impedidos de se pronunciar.