Salvar o quê?

Vasco Cardoso

Pode-se ser ecologista sem pôr em causa o modo de produção capitalista? Sem pôr em causa um sistema que, tendo como objectivo principal o lucro, a ele tudo subordina incluindo os recursos naturais? Em capitalismo a água, as florestas, os oceanos, a biodiversidade, os solos, todos os recursos do planeta são, tal como a força de trabalho, mercadorias. A sua exploração e apropriação por parte das classes dominantes é fundamental para a concentração e centralização de riqueza num número cada vez mais reduzido de mãos. É assim que funciona. Mesmo que isso signifique a pobreza, a miséria ou sofrimento de milhões de seres humanos. Mesmo que para tal se arrasem ecossistemas inteiros, se destruam grandes manchas florestais (lembremo-nos dos incêndios), se envenenem cursos de água, se contaminem solos ou se explorem até à exaustão (veja-se o olival intensivo), mesmo que varie, por razões da intervenção humana, o clima.

O logro não está em defender a produção nacional, a agricultura e o mundo rural, ou a necessidade de o País poder utilizar os recursos, de forma planeada e racional, que a natureza lhe proporciona para o seu desenvolvimento, para o progresso e bem estar do seu povo. O logro existe quando se procura promover a ideia de que é possível preservar o planeta, sem questionar, sem combater, sem romper com os eixos centrais de uma sociedade que se baseia na exploração dos seres humanos e dos recursos para proveito de uns poucos.

A defesa do meio ambiente e conservação da natureza não chegaram agora à luta pela transformação da sociedade como alguns pretendem fazer crer. Mas essa luta só pode ter êxito, diria mesmo, só pode ser séria, se tiver no horizonte uma transformação radical da sociedade em que vivemos. O envolvimento das grandes multinacionais, das principais estruturas e entidades do sistema como o FMI, o Banco Mundial ou a União Europeia, dos principais rostos do neo-liberalismo em torno das preocupações ambientais, definindo a sua agenda e motivações só pode suscitar inquietação. Pois mais do que salvar o planeta, há quem esteja a procurar salvar o capitalismo.




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