Famílias
A saga das nomeações familiares que tanto tem empolgado a generalidade da comunicação social deu origem, como já vem sendo costume, a um frenesim legislativo de que se desconhece ainda o desfecho.
O assunto trouxe-me à memória o processo dos Távoras, um dos mais famosos e polémicos casos judiciais da nossa História, que para além da liquidação dos principais membros daquela família e de alguns dos seus fiéis seguidores, todos acusados de conspiração e tentativa de regicídio, facilitou a submissão da nobreza aos projectos de centralização do poder advogado pelo marquês de Pombal, essencial para a consolidação do poder absoluto, e abriu portas à expulsão da Companhia de Jesus.
O que é que isto tem a ver com os primos, cunhados, maridos, filhos, mulheres, padrinhos, afilhados e etc. e tal do governo PS não sei, mas lá que me lembrei, lembrei.
Talvez fosse porque se dizia que o marquês de Pombal perseguiu os Távoras até à quinta geração; ou porque até hoje subsistem dúvidas quanto à culpa dos acusados; ou porque não falta ainda quem diga que tudo não passou de uma manobra política muito oportuna. Guerra de famílias, portanto.
Seja como for, o que parece cada vez mais provável é que no futuro os membros do governo sejam compelidos a apresentar, juntamente com a declaração de interesses, a sua árvore genealógica, que como se sabe é o mapa das ligações biológicas entre diferentes indivíduos e gerações. A coisa pode não ser simples e exigir até trabalho especializado, pois se o projecto de lei do PS limita nomeações de parentes até ao quarto grau da linha colateral, já o Presidente da República, mais pombalino do que Pombal e agora também com veleidades de legislador, quer proibir as nomeações de qualquer parente até ao 6.º grau colateral, o que inclui – diz quem já fez as contas – primos segundos, primos-tios-avós, primos-sobrinhos-netos, tios-trisavós, sobrinhos-trinetos, pentavós e pentanetos.
Não se julgue no entanto que as dificuldades ficam por aqui. Um estudo divulgado há um ano na revista Science revela que investigadores conseguiram reunir 13 milhões de pessoas numa única árvore que remonta 11 gerações. Agora imagine-se o que não será neste quintal chamado Portugal que nem a dez milhões chega! Isto se não é tudo primos e primas, padrinhos e afilhados, para lá caminha...
Está bom de ver que não será a proposta legislativa do PS a resolver a questão, que por acaso veio à tona em ano eleitoral apesar de a situação ter barbas e da particularidade de não isentar nenhum dos partidos que governaram nas últimas décadas.
Entretanto, enquanto assim se entretem o povo, os que não se detêm em consaguinidades continuam os negócios... da família capitalista. Espertos, hein?