O significado das eleições em Israel

Ângelo Alves

As eleições do passado dia 9 de Abril em Israel e o quadro político em que elas se inserem devem suscitar em todos os defensores da paz, dos direitos dos povos e da democracia uma profunda reflexão e uma inquietação que não pode nem deve ficar à espera do que possa estar para vir. Exigem acção e luta.

O resultado destas eleições expressa duas tendências. A primeira é que Israel se assume cada vez mais como um estado confessional e racista. É isso que traduz o aumento significativo da abstenção entre população árabe que se vê cada vez mais oprimida na concepção de “cidadãos de segunda”. Esta realidade coloca a incontornável questão de se as eleições israelitas foram eleições verdadeiramente livres. A resposta é não. É impossível haver eleições livres num Estado que pratica uma política de ocupação, discriminação e apartheid.

A segunda é que todo o quadro político destas eleições e o período que as antecederam, tiveram como pano de fundo o extremar do confronto, do belicismo e do terrorismo de estado de Israel, tentando transformar o acto eleitoral numa espécie de plebiscito, configurado e decidido à partida, sobre a ideia de que a existência do Estado de Israel pressupõe a ideia de o povo palestiniano não ter direito a edificar o Estado da Palestina.

É esta a grande questão que está por detrás de vários acontecimentos recentes. Estamos perante uma alteração qualitativa de monta na questão palestiniana, e as eleições israelitas serviram para dar uma aparência “democrática” a uma linha de actuação política do Governo israelita que cada vez mais se afirma como abertamente ilegal e extremista.

Foi isso que esteve por detrás de toda a actuação do Governo israelita e da Administração Trump que agem como um único bloco altamente coordenado. A decisão de Trump de transferir a Embaixada dos EUA para Jerusalém, as declarações incendiárias da administração norte-americana sobre os montes Golã e as declarações de Netanyahu sobre a intenção de anexação da Cisjordânia configuram um ataque frontal a tudo o que até hoje foi estabelecido no quadro do direito internacional relativamente à questão palestiniana, desde logo a solução de dois estados.

É isso que está presente naquilo que se conhece até ao momento do chamado “acordo do século” cuja preparação está a ser coordenada por Jared Kushner, genro e conselheiro de Trump e um dos proeminentes membros do poderoso lobby sionista nos EUA. Segundo notícias publicadas na imprensa norte-americana o “acordo do século” elimina a existência de um Estado palestiniano como premissa fundamental de um processo de paz, ou seja, rasga tudo o que foi até agora fixado em acordos de paz que nunca foram cumpridos por Israel.

Benjamim Netanyahu será nomeado mais uma vez primeiro-ministro do Governo Israelita. Para isso conta com o apoio de várias forças ultra-ortodoxas e abertamente fascistas e de Trump. As suas próximas acções poderão significar passos gravíssimos numa política que cada vez mais se afigura como de limpeza étnica do povo palestiniano e que poderá incendiar ainda mais o já de si explosivo caldeirão do Médio Oriente. O momento exige clareza. O Governo português tem de se demarcar claramente da dupla de extrema direita Netanyahu/Trump e condenar abertamente o terrorismo de estado de Israel.

 



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