Ida e volta

Correia da Fonseca

Rangel, eurodeputado, tinha diante de si a perspectiva agradável de uma viagem que lhe daria prestígio e lhe acrescentaria o currículo: ir à Venezuela cumprimentar e apoiar Guaidó, o presidente que se elegeu a si próprio. Para tanto, foi a Madrid e meteu-se num táxi para chegar ao aeroporto. Acontece, porém, que o trânsito em Madrid não parece mais fácil que em Lisboa, que os táxis emperram por lá mesmo quando transportam um eurodeputado em missão superiormente democratizante, e que em consequência Rangel falhou o avião para Caracas. Soubemos desta pequenina odisseia pela televisão, naturalmente, e também por ela pudemos recordar mais tarde que há males que vêm por bem. É que outros eurodeputados, digamos que uma mão-cheia deles, não perdeu avião nenhum, fez a viagem para Caracas que não é nada breve, e chegando à capital da Venezuela foi devolvida imediatamente à procedência porque as legítimas autoridades venezuelanas não estão dispostas a consentir ingerências estrangeiras na sua vida interna. Dizem elas, as legítimas, que o chavismo é um património do povo, e talvez acrescentem que, quando olham para o interior das autocaracterizadas democracias que enformam a União Europeia, não encontram que a gestão da coisa pública em qualquer delas se situe tão decisivamente no interesse dos povos quanto o chavismo na Venezuela, salvaguardadas obviamente as diferenças abissais entre as circunstâncias europeias e a amarga história de submissão ao peculiar colonialismo que é a marca norte-americana em todo o continente.

Como novos reis magos

Ficaram, pois, os devolvidos eurodeputados a digerir a sua rejeição, eles, que já antessaboreavam o prazer e a honra de cumprimentarem Guaidó, o presidente que Trump reconhece e após Trump todos os seus vassalos; o engenheiro formado numa universidade cuja designação, «George Washington», dirá o fundamental quanto aos saberes ali ministrados, designadamente os saberes políticos, que serão os mais relevantes. O episódio, ainda que fique por secundário, é verdadeiramente frustrante: imagine-se que há cerca de dois mil anos os chamados «reis magos» haviam sido impedidos de se ajoelharem diante do presépio e tinham sido devolvidos à procedência. Pois bem: podemos entender que, embora a uma escala diferente, os eurodeputados impedidos de oferecerem a Juan Guaidó as formas actuais de oiro, incenso e mirra, foram despojados da oportunidade de se parecerem pelo menos um pouco com os antigos magos, o que decerto muito lhes agradaria. Sobra que as coisas poderão não ficar por aqui: a União Europeia poderá não encaixar passivamente a desfeita: Rangel perdeu o avião mas não irá perder o espectáculo das agressões múltiplas que vão chover sobre Caracas. Esperemos que diferentes da trágica «chuva» que há já quase quarenta e seis anos desabou sobre Santiago.




Mais artigos de: Argumentos

Árbitro, o eterno mau da fita

Não deve haver lugar no planeta, como neste cantinho da Europa, onde as relações entre os agentes desportivos, sobretudo, os que se movimentam no mundo do pontapé da bola, tenham atingido tal estado de degradação. Os espectadores, assimilando horas de desinformação, debitada pela rádio, pelos...

O estado da arte

Alguns dos artistas plásticos subscritores da carta entregue ao primeiro-ministro em Outubro do ano passado, colocando pertinentes questões sobre o estado das artes visuais em Portugal, convocaram uma reunião. Em substância, propõem-se discutir o modelo de uma Comissão de Aquisições de Arte...