O apagão da alternativa
A conferência «Alternativa patriótica e de esquerda! Por um Portugal com futuro!», realizada pelo PCP no passado sábado, em Setúbal, foi escandalosamente apagada de quase toda a comunicação social nacional. Apesar de a prática ser recorrente, os objectivos e dimensão da iniciativa tornam verdadeiramente espantoso o apagão.
Na imprensa, basta dizer que as linhas que este texto ocupa davam para o triplo do que foi publicado: apenas o Correio da Manhã e o jornal i publicaram pequenas caixas, praticamente com o mesmo texto e com a mesma citação da intervenção do secretário-geral do PCP.
No caso das televisões, o mesmo panorama. A única excepção ao silêncio total e absoluto foi a RTP. No entanto, a estação pública conseguiu fazer um tratamento inaceitável, enfiando uma curta passagem da intervenção de Jerónimo de Sousa numa peça com reacções de dirigentes partidários a uma reportagem sobre o Montepio Geral. Nas rádios, silêncio.
Nesta coluna já denunciámos por várias vezes casos de iniciativas do PCP que mereceram tratamento idêntico. Não querendo diminuir qualquer dessas denúncias, a ocultação da conferência do passado sábado assume especial gravidade. Pelo meio de uma intensa actividade partidária e no meio da discussão do Orçamento do Estado para 2019, que outro partido seria capaz de realizar uma iniciativa de discussão da política alternativa para o País e da alternativa política necessária para a concretizar?
Ainda para mais, o noticiário das 20h da TVI dedicou tratamento autónomo ao PS e ao PSD, e, no caso da SIC, também ao BE. Em ambos os casos, o PS mereceu duas peças (sobre as jornadas parlamentares e sobre o IVA dos espectáculos tauromáquicos); na SIC, também o BE mereceu duplo tratamento, sobre o Orçamento do Estado para 2019 e ainda a repetição de uma peça sobre a gestação de substituição.
É sintomática a disparidade entre a cobertura mediática de uma iniciativa que contribui para a construção colectiva de uma alternativa para o País, ao mesmo tempo que são tecidas loas na comunicação social a qualquer estudo encomendado por uma qualquer associação patronal. É uma prova da submissão da comunicação social ao poder económico, e é também um exemplo das consequências disso mesmo.
Ainda há poucas semanas tivemos um outro exemplo dessa submissão, com a subalternização da manifestação nacional da CGTP-IN, quando esta foi pura e simplesmente ignorada: o Público, dito diário de referência, não gastou uma linha.
Com a realidade a encarregar-se de desmentir a teoria das inevitabilidades, com o contributo decisivo do PCP, o capital e os seus instrumentos agitam-se agora a esconder a verdadeira alternativa, ao mesmo tempo que temas conjunturais ocupam largos minutos dos noticiários televisivos. No caso da SIC, no passado sábado, o Jornal da Noite deu mais de quatro minutos de resumos de jogos das ligas italiana, inglesa e espanhola; da conferência do PCP, como vimos, zero.