A surpresa de Cavaco
Em recente entrevista à TSF, Cavaco Silva disse ter ficado surpreendido pela facilidade com que o PCP se «curvou» perante as imposições ditadas ao País pelo Ministro das Finanças, acrescentando que não esperava que o PCP se «curvasse» com tanta facilidade às exigências de redução do défice.
Ora, sabendo nós que os governos do PSD que tiveram Cavaco Silva como primeiro-ministro e o governo do PSD/CDS que contou com o seu apadrinhamento como Presidente da República foram campeões no corte de direitos, no abate de serviços e na privatização de empresas e sectores com dramáticas consequências para o povo português, não ficamos espantados com tão descarada e hipócrita afirmação.
O que incomoda Cavaco Silva (tal como a Rui Rio, Assunção Cristas e outros expoentes da política de direita) não será, antes, o oposto do que afirmam?... Que o PCP não se curve a pressões, ameaças ou chantagens?… que o PCP se afirme com a sua independência de classe?… Que não ceda à ofensiva ideológica dos que muito gostariam de poder influenciá-lo nas análises, critérios e orientações, visando condicionar a sua actividade?...
Quando se diz surpreendido por ver que o PCP se «curvou» às exigências ditadas pela redução do défice, o que Cavaco Silva quer dizer é que não tolera que o PCP não se tenha curvado perante ele e tenha optado por influenciar a vida política portuguesa ao ponto de ser a força político-partidária com intervenção determinante nos avanços na defesa, reposição e conquista de direitos que, na situação política actual, pela luta, os trabalhadores e o povo alcançaram.
O que Cavaco Silva não suporta é que estes avanços possam levar ao alargamento do prestígio e influência social do PCP. E, com mais força, o PCP possa determinar outros avanços mais profundos, em ruptura com a política de direita, no caminho a uma política alternativa patriótica e de esquerda.