Do Armistício e do 7 de Novembro

Manuel Gouveia

Que dizer, um ano depois do centenário, que não tenha sido já dito e redito? Provavelmente, pouca coisa. Mas é impossível fugir à pura necessidade de a cada ano recordar o maior acontecimento da história, e de sublinhar a sua actualidade, a sua importância na luta que travamos todos os dias.

Vivemos no ocaso capitalista, num tempo onde o desespero de uma classe dominante incapaz de continuar a dominar como dantes faz renascer das trevas todas as bestas e todos os medos.

É neste quadro que a burguesia comemora o armistício de 1918 com tanta pompa e circunstância, tratando de esconder a verdadeira faceta da guerra de 14/18: a brutal carnificina em que o capitalismo mergulhou a Europa, com dezenas de milhões de proletários e camponeses enterrados vivos nas trincheiras, a gasearem-se uns aos outros, a matarem-se uns aos outros, para decidir quem – se os imperialistas alemães, se os imperialistas ingleses ou franceses - iriam explorar um conjunto de colónias e de mercados.

Os anos da primeira grande guerra foram anos de chumbo, onde a fome e a morte eram visita quase obrigatória das famílias proletárias de um continente inteiro, num quadro agravado pelo facto do essencial da direcção do movimento operário e socialista ter apodrecido e estar tomada por chauvinistas e colaboracionistas.

A revolução soviética de 1917 resultou da necessidade, tão actual, do proletariado retirar do poder as classes então dominantes, e se libertar do capitalismo libertando dele a humanidade. Tal só foi possível porque um conjunto de homens e mulheres se organizaram em Partido muito antes, compreendendo que «para vencer a resistência dessas classes [dominantes] um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam — e, pela sua situação social, devam — formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.»




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