Encosto
«A questão dos acordos de empresa será uma luta muito complicada. Mas estes acordos têm de cair, porque contemplam direitos desajustados a uma sociedade que se quer eficiente». As palavras são de Sérgio Monteiro numa entrevista à publicação Transportes em Revista, em Dezembro de 2011. Na ocasião, o então secretário de Estado dos Transportes, referindo-se ao modelo de privatização para as unidades de negócio da CP, então ainda em aberto, avançava que as unidades sustentáveis eram as de Suburbanos e o Longo Curso Alfa/Intercidades. «Essas unidades geram dinheiro. O Regional perde muito dinheiro, mas é iminentemente serviço público. Mas algumas áreas suburbanas necessitam de investimento. Quanto ao Longo Curso, não existe nenhuma razão para que não seja posto a concurso…». Conhecido como o rosto das privatizações do governo PSD/CDS, Sérgio Monteiro, o vendedor (como há uns anos lhe chamou o Observador), torna definitivos os encerramentos das linhas da Figueira da Foz a Cantanhede e Pampilhosa, do que restava das linhas do Corgo (Régua-Vila Real) e do Tâmega (Livração-Amarante), manda fechar a linha do Alentejo entre Évora e Funcheira, tal como o serviço de passageiros na linha do Leste entre Abrantes e Elvas. Entretanto, entre 2010 e 2015, houve uma redução de cerca de um terço dos trabalhadores. Entretanto, os transportes degradaram-se. Era a sangria a juntar à sangria iniciada nos governos de Cavaco, altura em que desapareceram linhas no Douro, na Beira, no Alentejo (caso dos serviços Mora, Reguengos de Monsaraz, Estremoz, Vila Viçosa).
As privatizações marcam o seu mandato – da TAP, CP Carga, Emef, Metro, Carris, Metro do Porto e STCP, da linha de Cascais –, e embora algumas tenham ficado pelo caminho, como a Emef e a linha de Cascais, Sérgio Monteiro ficou para a história como um vendedor de sucesso, a tal ponto que o Banco de Portugal o foi buscar para a venda do Novo Banco. Os «ganhos» para o Estado, esses, só constam dos discursos.
Vem este exercício de memória, não exaustivo, a propósito da recém-descoberta dos comboios pelo CDS que levou os principais dirigentes do partido a usar este meio de transporte para constatar o óbvio e para a dirigente do partido acusar as «esquerdas encostadas» do estado a que chegou a ferrovia.
Sem pôr em causa as responsabilidades do PS na matéria – a alternância sem alternativa dá nisso – importa relevar o obsceno encosto, esse sim, do CDS a um problema real que tem a sua marca. Tendo sido não só conivente mas cúmplice activo das políticas de liquidação dos serviços públicos, em que o transporte ferroviário se inclui, o CDS usa a degradação da ferrovia de que é co-autor para tentar retirar dividendos políticos, ao mesmo tempo que vai lavrando o terreno de eleição da sua sementeira, a privatização. Mais do que encosto, é mancebia.