Acuso
Num dia de Abril, quando o «ataque com armas químicas» na Síria ainda dominava os noticiários – a propósito, o que terá acontecido às «provas» que os EUA, França e Grã-Bretanha diziam ter, que ninguém as viu? –, a Alta Representante da UE para Política Externa e Segurança, Federica Mogherini, caiu-me na sopa à hora de jantar com um comovente apelo à comunidade internacional, porque «não se pode tolerar que crimes de guerra e contra a humanidade fiquem impunes», lembrando a propósito as crianças sírias que não conhecem outra realidade que não seja a guerra.
Foi tocante, tanto mais que por esses dias não se poupou nas palavras para assinalar sete anos de morte e destruição, de dor e medo, de raiva e desespero, de vidas destroçadas... Palavras certeiras, certamente, embora sem nunca irem ao cerne dos porquês da guerra na Síria, contas de outro rosário que não interessa desfiar.
Lembrei-me disto esta semana quando a chacina, o massacre, o banho de sangue, o genocídio, a carnificina, o extermínio de palestinianos pelo exército de Israel saltou para os noticiários e se tornou notório que salvo raras e honrosas excepções nenhum destes termos foi/é utilizado para adjectivar o que está a acontecer na Palestina.
A utilização de fogo real sobre as manifestações de protesto contra a abertura da embaixada dos EUA em Jerusalém esta segunda-feira, dia em que Israel assinalou 70 anos de existência e véspera do que os palestinianos designam dia da catástrofe – Nakba –, que assinala o êxodo forçado de mais de 700 000 árabes dos territórios ocupados por Israel, provocou já mais de meia centena de mortos e milhares de feridos. No entanto, as palavras que se fizeram ouvir para classificar a barbárie israelita foram bem mais anódinas, como confrontos, violência, crise, ataque, acontecimentos..., mesmo reconhecendo, como a Organização Mundial de Saúde, que o número de vítimas é «comparável a uma situação de guerra».
Salvo erro, não houve reacções indignadas à afirmação da embaixadora dos EUA na ONU de que «Israel mostrou contenção durante os confrontos», nem a senhora Mogherini veio a terreiro falar das gerações de palestinianos que há 70 (setenta!) anos vivem sob ocupação, opressão, humilhação, repressão de Israel, espoliadas de tudo menos da sua inabalável coragem de prosseguir a luta pelo direito a uma pátria livre e soberana.
Nesta hora em que as palavras necessárias primam pela ausência – e a escolha das palavras nunca é inocente – repito como Sophia de Mello Breyner: Com fúria e raiva acuso o demagogo / E o seu capitalismo das palavras... / Com fúria e raiva acuso o demagogo / Que se promove à sombra da palavra / E da palavra faz poder e jogo / E transforma as palavras em moeda / Como se fez com o trigo e com a terra.