Levante-se o réu!
O juiz diz «levante-se o réu!» e a «ré», com os seus 65 anos, rosto com a cor e as rugas de quem labuta a terra de sol a sol, mãos calejadas de roçar mato, levanta o corpo cansado e aguarda, pacientemente, que lhe seja aplicada a medida de coacção por fazer uma queimada que se descontrolou, transformando-se em incêndio. Situação semelhante a dezenas de outras este ano.
Aguarda com a mesma paciência com que aguentou as medidas de sucessivos governos, que, deliberadamente, destruíram o mundo rural, deixando-o ao abandono.
Cumprirá a pena – que é já disso que se trata para gente cuja honra é uma questão de vida ou morte e nunca se imaginariam sentados no banco que, para eles, estaria reservado aos criminosos – com a mesma obediência com que, obedientemente, respondeu às campanhas ameaçadoras, limpando, à custa do seu braço, a pequena parcela que herdou dos pais, ou que comprou com sacrifício.
E imagino que tenha acompanhado a sessão do Tribunal com o receio que sentiu nos últimos meses de que lhe aplicassem severas multas caso não a limpasse.
A esta realidade acrescem as escandalosas situações de seis mortes, apenas este ano, em circunstâncias idênticas. Dizia uma senhora numa reportagem de televisão, «nem precisava nada disto, mas ela tinha medo que lhe tirassem as terras...».
Ora a questão é simples. Quem é que deveria estar sentado nos bancos dos réus? Aqueles que, teimosamente, insistem em manter viva a pequena agricultura e o mundo rural, recorrendo, para isso, às formas que têm à mão, ou os que, por opção e ao serviço de interesses económicos, realizaram e continuam a realizar a política que visa a sua destruição e que, nos últimos meses, semearam o pânico, lançando mão a todos os meios e ameaças, atirando assim estes homens e mulheres para a fogueira?