Levante-se o réu!

João Frazão

O juiz diz «le­vante-se o réu!» e a «ré», com os seus 65 anos, rosto com a cor e as rugas de quem la­buta a terra de sol a sol, mãos ca­le­jadas de roçar mato, le­vanta o corpo can­sado e aguarda, pa­ci­en­te­mente, que lhe seja apli­cada a me­dida de co­acção por fazer uma quei­mada que se des­con­trolou, trans­for­mando-se em in­cêndio. Si­tu­ação se­me­lhante a de­zenas de ou­tras este ano.

Aguarda com a mesma pa­ci­ência com que aguentou as me­didas de su­ces­sivos go­vernos, que, de­li­be­ra­da­mente, des­truíram o mundo rural, dei­xando-o ao aban­dono.

Cum­prirá a pena – que é já disso que se trata para gente cuja honra é uma questão de vida ou morte e nunca se ima­gi­na­riam sen­tados no banco que, para eles, es­taria re­ser­vado aos cri­mi­nosos – com a mesma obe­di­ência com que, obe­di­en­te­mente, res­pondeu às cam­pa­nhas ame­a­ça­doras, lim­pando, à custa do seu braço, a pe­quena par­cela que herdou dos pais, ou que com­prou com sa­cri­fício.

E ima­gino que tenha acom­pa­nhado a sessão do Tri­bunal com o re­ceio que sentiu nos úl­timos meses de que lhe apli­cassem se­veras multas caso não a lim­passe.

A esta re­a­li­dade acrescem as es­can­da­losas si­tu­a­ções de seis mortes, apenas este ano, em cir­cuns­tân­cias idên­ticas. Dizia uma se­nhora numa re­por­tagem de te­le­visão, «nem pre­ci­sava nada disto, mas ela tinha medo que lhe ti­rassem as terras...».

Ora a questão é sim­ples. Quem é que de­veria estar sen­tado nos bancos dos réus? Aqueles que, tei­mo­sa­mente, in­sistem em manter viva a pe­quena agri­cul­tura e o mundo rural, re­cor­rendo, para isso, às formas que têm à mão, ou os que, por opção e ao ser­viço de in­te­resses eco­nó­micos, re­a­li­zaram e con­ti­nuam a re­a­lizar a po­lí­tica que visa a sua des­truição e que, nos úl­timos meses, se­me­aram o pâ­nico, lan­çando mão a todos os meios e ame­aças, ati­rando assim estes ho­mens e mu­lheres para a fo­gueira?




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