Problema de classe
«Agricultura perdeu cem mil mulheres desde chegada da troika», titulava o DN na sua edição de 2 de Abril. Em seis anos desapareceu dos campos metade da força de trabalho feminina, 101,4 mil mulheres.
Há quem considere esta situação um sinal de progresso, em resultado da mecanização da agricultura e do surgimento em grande força de outras oportunidades de emprego. Mas como bem lembrou a CNA, o factor determinante e que estes estudos quase sempre desvalorizam ou ignoram é o desaparecimento de milhares de pequenas explorações agrícolas, é a continuada asfixia da agricultura familiar que se repercute em particular sobre quem nela mais trabalha – as mulheres –, situação agravada em 2017 por fenómenos como a seca e os incêndios.
Seja como for, são números que também desmentem velhas e novas teorias que pretendem sobrepor a desigualdade de género à desigualdade de classe. É que, em quatro destes seis anos, a responsável directa pela pasta da agricultura no governo PSD/CDS era mulher e ficou célebre, entre outros pergaminhos, pela eucaliptização desenfreada, por uma nova lei voltada para a roubalheira dos baldios, por novos passos no desmantelamento de estruturas de apoio à agricultura e aos pequenos e médios agricultores (como é o caso da Casa do Douro), pela acentuada queda dos rendimentos dos pequenos e médios produtores e por um ataque despudorado à agricultura familiar e à sua estrutura associativa de apoio, rumo esse que o ministro Capoulas Santos, no essencial, insiste em prosseguir.
Razão tem o PCP ao reclamar financiamento, ordenamento, estruturas, medidas efectivas de apoio, para garantir rendimento, presença humana, mundo rural vivo e floresta de uso múltiplo e ordenada.
Este não é, de facto, um problema de género, mas de classe e de soberania alimentar.
E maior problema ainda: sem solução para ele não há futuro.