A guerra comercial

Luís Carapinha

China e Rússia são catalogadas como «potências revisionistas»

Pelos vistos o imperialismo decidiu experimentar abrir a caixa de Pandora da guerra comercial. A entrada em vigor das taxas aduaneiras sobre o aço e alumínio anunciadas por Trump é mais uma desfeita no «multilateralismo» e edifício da OMC e sinal de que os efeitos da crise económica mundial de 2007/9 estão longe de estar ultrapassados. Doseando as pressões e direccionando o foco, a Casa Branca concedeu uma isenção temporária que inclui, entre outros, a UE e os «parceiros» da NAFTA, Canadá e México, abrindo passo a obscuras negociações. Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano assinou uma ordem executiva impondo novas tarifas às importações da China que podem ascender a 60 mil milhões de dólares, mais de 15 por cento do défice anual do comércio dos EUA com a segunda economia mundial. As medidas a concretizar passam igualmente por novas restrições no investimento chinês nos Estados Unidos e no que Washington designa de transferências tecnológicas a favor da China.

Fica claro, se dúvidas houvesse, quem é o alvo fundamental da agenda «proteccionista» de Trump.

No establishment, em conturbada pugna interna, é praticamente consensual a necessidade imperiosa de enfrentar o repto estratégico representado por Pequim, residindo as diferenças na forma de o fazer. A China e a Rússia são abertamente catalogadas como «potências revisionistas» e o principal desafio [à hegemonia da super-potência imperialista] na doutrina de segurança nacional dos EUA. Um artigo da última Foreign Affairs reconhece que a política do «cacete e da cenoura» usada durante décadas com a China não funcionou (https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2018-02-13/china-reckoning). É uma grande chatice... «O envolvimento diplomático e comercial não trouxe a abertura política e económica». Falhou a cooptação pela «ordem internacional liberal» da China e o robusto crescimento económico desta serviu para «legitimar o Partido Comunista da China e o seu modelo de economia de comando estatal». «Washington enfrenta agora o seu concorrente mais dinâmico e formidável da história moderna», cada vez mais também no plano militar, conclui-se.

Maior contribuinte do crescimento global e catalisador do contraditório processo de rearrumação de forças no mundo, sem abdicar da sua soberania, a China actua objectivamente como elemento fulcral da desconstrução da ordem mundial centrada nos EUA. No momento preciso em que é patente o aprofundamento do quadro de estagnação imperialista e o declínio da potência dominante.

É este o pano de fundo do frenesim de Washington e do espectro desestabilizador da espiral de hostilidades, de consequências imprevisíveis no plano mundial, «guerra» que os EUA sabem não poder vencer no plano económico. Pequim já introduziu medidas simétricas em relação a 128 artigos dos EUA, respondendo às taxas aplicadas aos dois metais. Os EUA vêm acenar com a via negocial, reafirmando as tensões entre dois sistemas, «de capitalismo de Estado e mercado».

Em Pequim a perspectiva subjacente é outra. Como relembrava Xi Jinping no recente encerramento da Assembleia Popular, apenas o socialismo pode salvar a China.

E a humanidade perante o acosso da besta ferida.




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